aos cretinos

a espada sempre esteve nas mãos de quem lhe cerrava o destino
em outra mão, a palavra de quem lhe dava a unção

hoje, não diferente de quando a civilidade era menina-moça
enchem-se de moscas as bocas difíceis dos cretinos
aqueles que safam suas pompas em pomparias toscas
e se deleitam em sábias palavras emprestadas

pois bem, meus instintos de homem não calha em tão longínquo posto
tão sucinto é o homem que o apredeja
que, bebendo da mesma fonte, eu permito
minha boca possa então proferir um sussurro de guerra
aos que calam os que não falam e se gabam por lhes ter cuidados
calem-se pois menos dizem quando falam, sois maldito entre as plebes
e rude entre os gentis.


da Terra

o risco de tua entropia saudando meu solo
de tua abóboda anil em suspiros de ânimo
que inunda minha terra como em pântanos
fazendo correr a dor das montanhas
fazendo charcos e lagos,
rompendo barrancos


(sem título)

acreditar na vida e
aprender a sorrir quando
não mais refúgios para a dor se tem
e não se deixa fugir a força motriz da vida

libertar o cerne, o centro, o sangue da questão
quando esvair-se o que foi feito para se esvair no vão
entre o pranto e a ilusão, o tênue. penumbra que
tinha como tanto o descarte, a energia vã

sentiu-se mais livre ela, quando perdeu a juventude e
no fundo de si mesma percebeu o cerne, o ponto
e que sempre existe um encontro com a verdadeira vida
bastava só esvair o que fora feito para esvair-se


Felicidade

Ai de quem me disser
que felicidade se cria
na lei ou na alforria
tal calúnia não emplaca
a felicidade é uma barca
que atraca na poesia


Soa

sua suave
soa conchave
com chave
contrainquisição

sua com álibi
soa sondábil
sonda hábil
sondamultidão

sua suposta
suposição
sua posição
soa podridão


Infinitício

eras ergueram meio-termos
e todos os romances foram sinceros
e se encerram com devido termo
como se fossem eternos

a labuta dos dias não encara a fuga
em juras de infinito e para sempre
até o fim em uma luta justa
entre felicidade e contentamento
é justo, é sacramento

o suor não se dá ao infinito
a dor está no sempre
assim como era no princípio,
agora e sempre

nem sempre bonito

nem sempre como se era no princípio

o tempo passa
o infinito se afasta com todos os hojes
e aquéns do vai-e-vem dos dias
todos estamos à mercê dos dias
e tão casualmente, sempre, do infinito
e dos infindáveis princípios em decorrer

a decorrência do precipícios
o estagno à correr do início
e minha sede que não para de nascer


Meu Poema

um pouco do mundo guardado em mim
uma estranheza como há em poucos
minha grande armadura de louco
eu velo embalado aos bandolins

ratreio a poesia nos sorrisos alheios
e meus lábios se encantam, serenos
sorrindo me faço e me permeio
estilhaço meus cacos, meus gritos, meus medos

sorrio ao mundo que me é alheio
ei-lo de encontrar ao final das contas
pois bem sei de cor meus devaneios


da Ousadia

perder o medo da morte
é aceitar a vida em seus riscos
tomar o ar e mergulhar no desconhecido
sabendo dos seus imprevistos
encarar o breu e com luz própria
clarear

clarearei meu caminho de humano
imerso com o fôlego de menino
que descobre em densa mata
o perigo de se ver herói de si mesmo

quero voltar a ser menino
moleque com a curiosidade do espírito
em novo chão, ar e céu
velar o sorriso com instinto


Se meu fim me deixar

e se a faca perder o fio
e o cartucho falhar
e se o ultimato não for de fato
o último retrato a se lembrar?

e se o ar me resitir
e no ar eu flutuar?
e se o rio se densificar
e eu boiar de fato
tendo que o ultimato,
a quebra do contrato,
haver de se postergar?

se meu velho deus, o santo deus
me negar findar e me resistir
brecar minha punhalada
o meu voar, enfim
pairar sobre a brisa do eterno raiar da noite
e a morte tão querida me repudiar?

se meu fim não chegar
em vias de fato,
a queima o contrato da vida
o ultimato autoconduzido
o tiro impreciso
o gume que me acariciar a jugular

se meu fim me deixar


Oração Livre à Werther

a vida é só uma
mas os caminhos… tantos
meus passos se torcem
minha língua trava
a vida são tantas
mas são mesquinhas
e como me espanta saber
que embora possa não parecer
só há uma vida destas que caminha

fiz aqui e agora
uma oração minha
que afugenta perigos
pregos, pedras, encruzilhadas

na minha malfazeja andarilhança
rompo aliança com a eterna vinha
para que melhor sinta meu corpo
e nasço! jovem werther,
jovem acabrunho que desatina
sorrindo com alma
penando como a vida


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