Meu Poema
um pouco do mundo guardado em mim
uma estranheza como há em poucos
minha grande armadura de louco
eu velo embalado aos bandolins
ratreio a poesia nos sorrisos alheios
e meus lábios se encantam, serenos
sorrindo me faço e me permeio
estilhaço meus cacos, meus gritos, meus medos
sorrio ao mundo que me é alheio
ei-lo de encontrar ao final das contas
pois bem sei de cor meus devaneios
da Ousadia
perder o medo da morte
é aceitar a vida em seus riscos
tomar o ar e mergulhar no desconhecido
sabendo dos seus imprevistos
encarar o breu e com luz própria
clarear
clarearei meu caminho de humano
imerso com o fôlego de menino
que descobre em densa mata
o perigo de se ver herói de si mesmo
quero voltar a ser menino
moleque com a curiosidade do espírito
em novo chão, ar e céu
velar o sorriso com instinto
Se meu fim me deixar
e se a faca perder o fio
e o cartucho falhar
e se o ultimato não for de fato
o último retrato a se lembrar?
e se o ar me resitir
e no ar eu flutuar?
e se o rio se densificar
e eu boiar de fato
tendo que o ultimato,
a quebra do contrato,
haver de se postergar?
se meu velho deus, o santo deus
me negar findar e me resistir
brecar minha punhalada
o meu voar, enfim
pairar sobre a brisa do eterno raiar da noite
e a morte tão querida me repudiar?
se meu fim não chegar
em vias de fato,
a queima o contrato da vida
o ultimato autoconduzido
o tiro impreciso
o gume que me acariciar a jugular
se meu fim me deixar
Oração Livre à Werther
a vida é só uma
mas os caminhos… tantos
meus passos se torcem
minha língua trava
a vida são tantas
mas são mesquinhas
e como me espanta saber
que embora possa não parecer
só há uma vida destas que caminha
fiz aqui e agora
uma oração minha
que afugenta perigos
pregos, pedras, encruzilhadas
na minha malfazeja andarilhança
rompo aliança com a eterna vinha
para que melhor sinta meu corpo
e nasço! jovem werther,
jovem acabrunho que desatina
sorrindo com alma
penando como a vida
Andarerrante
já me fora o bastante
querer rolar as pedras
morro acima. quimeras!
fora de veras uma chacina de neurônios
e pelos demônios!
que me erram à mingua
me velam quando triste
e me apunhalam quando alegre
alcei em passos breves
o caminhar dos imundos
habitantes do mundo
gravatas pra me enforcar?
não, cadarços firmes de all star!
passos que se igualam aos de tantos
sem identidade, nem santidade alguma
só o padrão dos coices que hei de levar
a vida é uma coxilha de solavancos
e entre trancos e esperanças
travo a pá na pedra em um buraco a cavar
a cova dos meus dias tantos
alguns três mil e prantos
nem cristo pra afrontar!
caros amigos, que os prezo, entanto
não me levem ao delírio
já sou tão pouco, e sou tantos!
da Velhice
querer ter com razões vagas o que a vida não precisa pela alma que carregas
é a velhice mais piegas com a varize já rompida
o passo já atrasado, rastro na poeira
que de qualquer maneira não se imortaliza
Novamente, Março
ocorre assaz novembro
brevemente novembro
meu coração se inunda
distante
agora é dezembro
neste instante
como jamais o fora
ouço passos com correntes
ouço calabouços, ouço-os
gritando gentilmente
o esboço do corpo
o osso
o fosso do corpo
o esboço concorrente
calabouços eu ouço
será março novamente
para quem não o viu
sem abraços
com correntes
é março novamente
e duramente
um abraço sem corpo
Roda Viva
roda viva parou
estagnada no ar
impedida de rodar
o mundo inteiro calou
roda gira não mais
não mais roda a girar
não gira a roda
há roda, não mais
viva a roda viva
a roda gira
a roda é mais
que a brisa
dos aquietadores,
do arquiteto dos famintos
o menestrel de labirintos
a roda vai, a roda é viva
gira mundo, gira o sol
a lua gira ao meu lençol
e me guia na noite proibida
em que calo a poesia do homem banal
pois é, em que consiste a vida
se vazia não se há um porém
um porém para se estar
e lutar para que se viva
que se sorria,
de que vale a vida
sem amor a se amar?
ver todos os vinténs à queimar
em troca da poesia do sorriso
da criança, pois é preciso
um sorriso para não amargurar
Navega
pela onda que são os braços do mar
a vida me carrega e segue à navegar
meu corpo transeunte navega
fora do ninho, fora do ar
o que me cabe é uma canção
qual canção que eu não fiz
a onda vai e vem do mar
e na rebentação nasce por um triz
o rebento do oceano é a onda
meu barco é meu corpo
à deriva, jangada no mar
o meu destino é o porto
o meu sonho é chegar
meu destino é o porto
o meu sonho é chegar
a minha fé é de poucos
pois poucos estão a sonhar
Operário
de repente o intervalo dos dias cessaram
romperam-se os laços da vida
a boca fria não mais chamou-a
de repente os dias inacabaram
repentinamente cruzaram-se os braços
vôou-se por entre paredes de espaço
calou-se num bocado de tempo
os dias sem seu ungüento
ao contrário do sempre
nada como até nunca mais