que eu seja a vida entre quem se esqueceu de morrer
que seja a paz não proíbida entre os prisioneiros de deus
que eu seja o sorriso sincero entre os assassinos de si mesmos
que seja puro
enquanto culto
enquanto despondero pro bem

que eu quero que tudo esteja com o brilho dos sóis eternos
que quero que tudo seja como fogo amante da bondade
que quero que tudo seja como se fosse de verdade
que eu quero que tudo seja bons suspiros sinceros
que eu quero tudo
enquanto tudo parte de mim
enquanto ouso mudar o rumo

que eu seja a navalha no chão que precede o abraço amigo
que eu seja o aperto de mão depois do punho cerrado
que seja de verdade as verdades dos não pagãos
que seja as informalidades da íntima comunhão
que eu seja lume
que vaga-lume
que vaga no céu

na guerra sou o curso do projétil
no verão sou o caminho livre do sol
na floresta sou derrubada ausente
no fim-do-mundo vejo o sol raiar

na chacina sou as paredes com seus ouvidos
no inverno sou condensação
no deserto sou mais o calor e a sede
no entanto posso escolher o troco

no assalto sou nada mais que o susto
no futuro sou nada mais que a cegueira
no espaço sou quase tudo que permeia
no momento sou fruto do que faço

ai, minha alma sem paradeiro
sem um breu derradeiro
sem saber onde vai chegar

ai, minha alma escaldante
com um clarão lancinante
com um todo de amar

pois é, minha alma cadende
pois é. é uma total ausente
uma espera de chegar

ai, minha alma é latente
em que mesmo na gente
brinca de não esperar

pois minha calma é impaciente
em minha cama que é quente
teima em não me negar

como minha alma não sente
como a beleza que tende
a não saber escutar

ai, minha alma contente
chega para ser da gente
um alguém sem lugar

ai, minha alma é poente
é oeste é presente
que vai te amar

ah, aquela beleza
é uma tristeza
que faz te amar

ah, essa calma contente
é a certeza potente
de um dia abraçar

meu
amor

na corrida da vida
corro morro acima
avalanche quente
sou anjo cadente
que caí em cima

contra-cetiscismo
anti-pavorismo
alarmismo ou afins
sou anjo não-alado
andarei pelado
entre os clarins

o fogo da guerra
acende os olhos
raivosos e indignos
o anjo ascendido
entre fuzis e escopetas
não chora
nem faz caretas

corro contra o tempo
corro morro acima
meu peito queima
ardente de vacinas
contra a doença da mente,
da guerra, da fome
da carnificina

eu sonhava com os campos trigados
tudo o que posso é deserto negro
como turvalidades e nós intrigados
os nós que me prendem ao medo
que sobrevive no mesmo teto
imprevisto como toda a ignorância
ansiando as melhoras benvindas
desejo sorte à minha alma
como alentar alguém ao pé da morte
com alguma besteira em fase terminal

eu sonho com uma natureza animal

não mereço ser visto
nem pensado
lembrado ou bem-quisto
quero anonimato
uma vida sem retratos na parede
sem paredes, nem ouvidos
sem grilos, vermes ou carros
sem provável aspecto de bonito
cicatrizes e sem olfato, sem nós
nada que me faça percebido

quero no pescoço dar os nós dos sapatos

um fardo completo
com braços, pernas e ossos

quando miro meu olhar tristonho no espelho
copioso eu choro sem receio
de acordar manchado pela dor do amanhecer

vejo meu sorriso amarelado pela vida
pelas dores e pela avenida que passa sem saber
miro meu rosto enrubecido pela dívida
de que eu tenho algo pra fazer

como cantarei a canção que não escrevi?
como excitarei os corações de outréns?
como eu enxergarei com olhos que não vi?
e se saberei chegar onde eu nasci?

quando anseio todos os corações unificados
quando corrompo meu desejo de pecar
eu sinto que a vida no farfalhar das esquinas
pode ter outra cor
e assim terá, pois sou Amor

quando medito pelas dores aliviar
as dores de antigos mausoléis
sem sermos escravos nem servos
de nenhum senhor, de nenhum papel
que a palavra valha o compromisso
da harmonia incrível
invencível, pois sou Espírito

sai do meu corpo que não te pertence
sai daqui, bicho desgranido
seu anjo caído tal como quis o Senhor
sai fora seu danado e doido varrido
que eu leio o escrito e não sinto sabor

minha fé é de loucura fantástica
meu deus é de uma não burocrática
praga de amor
ele é de uma razão impressionante
me compra refrigerante e me paga o doutor

minha igreja é de anunciação estontiante
pelo grito do berrante, do nosso querido Pastor
o gato, a cabra a serpente,
bicho como a gente
mas amaldiçoado com rancor

eu brigo contra o que oprime o pobre
o que nos deixa nobre é nosso Senhor
diz nosso Irmão, Pastor João
que temos que abrir mão dessa riqueza
pra conseguir outra nobreza
não empregado, mas sim patrão

mas sei que com tudo isso há certeza
se Jesus o quer eu tenho a beleza
e os feios no céu não entrarão
por que dos céus pertence a perfeição
que as saias são compridas
e os homens não tem tesão

a cor do mundo fica pálida tal qual a morte
o desejo e consorte é um doce esmigalhado
porém redito o meu conselho em tuas bocas
de mãos unidas e palavras múltiplas

a cor do mundo fica tácita como é a dor
sem forças ou abrigo mu coração desperta
precisa caminhar até chegar sem o motor
da vontade inóspita de degradar os dias

a cor do mundo me subjulga ao bel-delito
mas não me precipito, nem revelo amargor
revelo o pranto que tenho colhido na vida
mas planto os devido cuidados de amor

a cor do mundo é da minha cor
azul como os dias azuis de tardes iluminadas
e verde como as canções das matas
e vibrando em todos os semi-tons dessa morada

me escolheu uma musa
para morar em seu delitos
no seio dos seus conflitos
um poeta morará

que sorte me trouxe a dor
de achar-te ao longe
de um olhar lisonge
uma delícia de topor

mas que requinte de sonhar
de praguejar ao meu favor
os sonhos do nosso prazer
e nossas esperanças amar

quando a distância se interrompe inexata
afago teu sorriso num comtemplar errante
o infinito infante dessa janela celeste
mesmo aberta, o sol nasce à oeste
carregando tua doçura enluarada
mesmo emprestada as estrelas carecem
do calor fugaz que tua luz me remete