Toda a alegria do mundo

aquela lembrança que tínhamos
que anda esquecida pela vida
esperando, sendo velada pelo tempo
esperando apagar a luz

aquele momento sem nada de costume
que andava despercebido, irrotinado

quando acaba a luz
o meio-fio se inutiliza
o campo precisava tomar o ponto
para vermos a que ponto chegamos

toda a tecnologia, toda logia
toda a simetria genérica,
toda hermética, ética, poesia
todas na lama que o asfalto revelou

já basta ergonomia, grafia
estaca zero para o acendedor automático
um viva aos que plantaram uma flor neste momento
e a aqueles que a cheiraram profunda e imensamente

cerrem as complacências, incoerências
toda a cartografia lunar sem apreciação
tome asco aos que preferem à boemia
uma boa dose de religião ou hipocrisia milenar

e cepem aquelas roupas da modinha
cortem-nas em pedaços e façam uma colcha
troquem aquela velha caixa de idiotização
por um punhado de folhas em branco
ou por um punhado de escritos que lhe valha atenção

chame sua família e vizinhança
do velho à criança
e sentem-se no jardim
como quem não quer nada de nada
sabendo que tem tudo de tudo
todos juntos, o todo
toda a alegria do mundo

Indialização

meu índio de mercado
na vitrine, estampado
reza ave maria
e faz sinal da cruz

meu índio, meu coitado
veste a camisa da seleção
e torce pelo romário
meu índio com nação

meu índio é assustado
com reservas da união
é sem cultura
esbranqueado
meu índio é mal culpado
dorme em rede
olhando televisão

meu índio vota e faz eleição
estão europeizados
de índio… nada mais não

meu índio vota
veste a seleção
reza uma lorota
e quando precisa
se fantasia
de índio
e dia 19 pinta na televisão

Chuvas

ouça a sinfonia dos pingos!
percebe-a!

escolhe os pingos quando a tocar o chão
acordam com tua canção da chuva
escolhe sensível o pingo certo
os que lhe acordam com o coração

deixa repercutir nas folhas teus tambores
e nas poças rasas tuas novas sonorizações
de corpo todo atento procura tua melodia
no batuque das calhas d’águas ou
até mesmo na metálica telha de zinco

procura tua canção na chuva que te dá
todos os tempos, todos os compassos
deixa que te envolva a úmida sinfonia
na sintonia dos espaços,
ritma teus corações
e faz do gotejamento celeste um passo
antante, compasso

Jaoamo da Paixão

não existe da silva
nem de barros
não importa rodrigues
o sobrenome de tavares

quero o codinome
o codinome de Antares
pois não me importa a raiz
que me importa é árvore

minha mentira vasconcellos
vaidosa velhice de quadros
quadrados queridos
esnobes de carvalho

antes os fossem nos barris
pois meus cantis mais felizes seriam
sem seus gargal(h)os

não se ofendam os vieiras
nem os silva e costa
nem limas, nem duartes

não me vale tua tradição
teu nome
teu passado não teu
teu caráter e presente
desde que presentes
me valem mais que todos teus brasões
que todos os teus ardis

desde que seja um contraventor

jaoamo da paixão

n.a.: (estou opondo a sobrenomenclatura e não os sobrenomenclados com os seus sobrenomes)

Efeito

todo novo será sempre velho
até que de novo velho será
antes que chegue o belo sonho
o velho estorvo te acolherá

tudo será novo de novo
de novo nada terá
sempre velho, tudo é joio
de trigo novo que plantará

todo era velho mesmo que novo
o efeito joão-bobo assim valerá
tudo era novo, oscila viscoso
nas paredes do tempo arranhar

todo o velho, todo o novo
tudo de novo, tudo outra vez
tudo de tudo, o pai e o filho
avô e pai, av’ôutra vez

Terra chama

Terra chama o Espaço
Terra chama o que não é Terra
de Espaço

Miram telescópios, farejam vidas
noutros planetas do Espaço
querem achar vida
(e não acham)

ângulos retos ou menos tortos
Riram ao encontrar uma pedra
um sedimento geomórfico, vivo
geofacto, abismal e plano

astromaníacos, antropofóbicos
Terra pleita pelo Espaço
em deleite telescópico

Onde os brutos não tem vez

com certeza e pressa
até o fim da linha
o horizonte definha
delínea consoante, exime-a

na certeza injusta,
da inglória passiva,
a luta cativa
onde os brutos não tem vez

idéias de filosofia
acolhem ébrias mentiras.
complacência intuitiva,
a decência dos cegos

intima-se a vida
a brindar cativa
sem saída ou possibilidade

vejo fustigada no horizonte
aquilo que um dia fora chamada
liberdade

Onze Horas

às onze horas de um dia nove
de um dia novo, décimo mês
o calendário anda, cadenciando
alegrando o dia com amor
amortecendo a vida
tecendo o tempo, a vida anda
ela canta, celebrando Luiza
lembrando de que é preciso lembrança
precisando da esperança que exito
ela, vida, Luiza, com ares de anjo
vai me dizendo baixinho, pairando,
-vai que é preciso, amor, vai
e o tempo seguindo meu passo
vai passando
e eu precisando de abrigo
não, o colo de Luiza é um mundo
nele fantasio, realizo, acordo
durmo, aliso o seio da vida
luiza, avisa-me que é preciso
que é preciso bem mais que um anjo.

Fotografias

um dia sem querer o homem descobriu a fotografia
noutra vindoura data especulava suas aplicações
cliques daqui e dali e o instante se fazia

entre opor todas as dimensões e regressar às duas
anteriores à estas três oculares visões
a perspicácia da engenhoca valeria milhões
por um retrato bem mau-quisto de uma célebre mignon

em mãos da platéia a máquina caíra (se preparem)
somos todos fotografistas profissionais
e mais que isso, somos espiões furtivos
expomos suas intimidades nos info-jornais

mas maldita hora em que olhamos para cima
empunhamos com o indicador em xeque ao botão
com olhos famintos à lente fitaremos
e proliferaremos o web-vício do mico

Até Breve

vou à esquina brincar de gente
ver o movimento, as meninas,
ver o rotineiro acidente
encontro de carros sem buzinas!

vejo se logo volto, saio sem adeus
paro, vigilante, como um vigia
obeservo, rondante, como quem espia
vejo que ali estava mais que deus

ali da esquina via que os carros
harmoniosos se esquivavam
rodam e rodam e rodam equiláteros
pra surgir ao meu encontro
ou para sumir de onde os via

os passos transeuntes sempre mais cotados
farfalhavam em batuques de salto alto
chinelo de dedo, pisadas forçadas,
o passo era medido pela pressa
e a presa que corria do chinelo rosado!

logo um choro, um uivo, uma gargalhada
logo se enchera de breves supernovas
um beijo, um surpiro, o amor sem cupido
fervem os desejos invisíveis,
hormoniosos, os corpos similares
reprovam suas roupas e seus castos
a puberdade da esquina não mede asfalto
os carros ainda passam, as meninas
as buzinas, as folhas, as vizinhas

até breve
é assim que dão adeus os namorados
logo surgem aos meus olhos ofegantes
de mãos recolhidas, olhares distantes
até que um dia algum mande recado

fui a esquina olhar para a gente
pois nã ome reconhecia, olhei
olhei, atento, diretamente
para dentro do meu peito, vaguei

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