o corpo não responde ao ímpeto que mal acontece
não transcende à vontade nula, padece ao parecer
fenece brusco ante ao imóvel ser e anula o dia antes da alvorada

eterno brio coberto pela poeira do que passou,
não reluz, não incandesce, apenas falha em parecer
jaz no mundo, meio vivo, o dia que não lhe cabe

nada é o que parece
ainda que um sorriso flamejante me rompa o semblante
a eterna tumba de dias ainda cá dentro apodrece

Anúncios

espelho de tangentes

vales e colinas eu desbravei
caminhei idas e vindas, continuamente
minha prece não traçou hipotenusas
meu desfecho foi espelho de tangentes

confesso que não tive esforço ou força bruta
nem muita labuta, nem muito prazer
não atalhei entre os catetos, talvez por culpa,
apenas oscilei em fases como sem saber o que fazer

o fumo do enxofre
o hálito de satã

retumbo –
a voz recua
e muda

é chegada a hora
me sobra febre
enraízo a carne
à carne improviso
o hábito da prova

lume de lúcifer
deu fogo à irmã
febre terçã
humana quimera

nas minúcias do ser real.
sem simulacro,
nem mímica psico-social
nem sendo um pé no saco
nem o santo-sacro
sem vaidade comportamental

aceitar o próprio acerto
a própria voz escoada
não enquadrar-se no estreito
nem ser boi de boiada
nem repetir bobices pelo estado de direito

calar todo mimetismo
não estar na solidão de um sósia,
apenas triturar e remoer o que te toca
fazer-se à própria toada, se deixar à bancarrota,
sem guiar-se pela infeliz vilania de ser cópia

o ranger do assoalho, o brinco que bate,
o trinco que gira.
o ferrolho e o passo no cascalho

olho que pisca a lágrima densa que invade – o fora

o teto ao certo é o piso do pássaro
céu de deuses ao espamos de um vento zunindo
é abrigo do limo e do tempo vivo indo e vindo
é o som do tártaro, do náufrago divino

sem sentido ao sentir-te
devora-me

dizia-me que eu pudera ser a luz do teu caminho
com um vaga-lume perambulando reluzente e sozinho
tristonho vagando sem teu passo para iluminar
hoje eu durmo sereno, sabendo que o mundo é pequeno
sabendo que teu carinho irei clarear

quando precisar, na hora mais escura, serei incandescente
para te gerar calor e luz quente quando o frio assombrar
posso ser o lampião, a labareda e o incêndio do sol
basta me anunciar no deslize dum olhar que entristeceu

posso ser o farol a te guiar ao porto e te evitar a ilha rochosa
e ser a mais caprichosa das lamparinas à óleo
me derramar sobre os inimigos teus, fervente, com ódio
e me fazer de breu só para que não te exponha os olhos
ao assombro de uma luz que feneceu em grimórios

e ressurgirei, potente e caudaloso como a lava de um vulcão,
alado sobre a crista das montanhas, das ondas e dos arranha-céus
ao teu lado pousarei, na nudez da tua carne e nos olhos do teu espírito,
para te iluminar outra vez como um simples abajur do quarto