eu sei. tudo tem sua hora
acontece que agora a aorta é quem pulsa
e conduz o amor e o tesão para sua obra
indo e vindo pelo corpo.
eu sei, o rosto cora

e se pensa em um motivo para menos pensar
mais se pensa e mais flui o sangue pela jugular
que pulsa e pensa e passa a imaginar
que eu sei, tudo teve sua hora de chegar

no próprio inferno em silêncio é que se reconhece o santo
sem no entanto toca-lo, imaculado e terno, e distante
enfermo infante azul que beira o precipício do ser
finda o dia como se fosse mais um, ou quiçá um a menos

toca na rádio uma canção antiga, latente timbre de tristeza que
ergue sábio a lembrança de um desejo, uma fuga da avareza que
desde criança permeia o enredo de um homem pobre de leveza

saibam, bons amigos, que estes, santo e demônio, já juntos jejuam
cá em meu limbo aprazem um bom chá de jasmim e oram
ora pela próxima cena de minha odisseia, ora pela raiz do capim
esta luta durará mais que outrora, por enquanto,
ao menos enquanto eu orar por mim

vou me desprender e vender minha carência na internet
é o que dizem especialistas, seis a cada sete!
eles entendem bem do que é viver!
sem amor, sem dor, e sem aquele sorriso de quem se derrete

perdoem-me, preciso sempre arder de louvor
pelas pernas bambas, sorrisos frouxos e, quem sabe,
sofrer outra vez por um novo amor

quem sabe mais que os poetas como ver na escuridão?
quem leria a mão da cigana que não quem a prosa escreve?
sem rima, sem tese, e que nem com toda a esgrima se atreve
estar em tão cálido verão sem um amor que lhe navegue

tanta gente que lia e dizia que escrevia bem que um dia acreditei que sabia dizer o que ninguém sabia dizer ainda que não sentisse o que eles queriam viver

uma poesia sem estrofes, sem versos e sem vírgulas e que se nega ser toda prosa

ao pé do ouvido
no canto do olho
na carne, no corpo
e no gemido

moraria em teu sorriso
no teu suor naufragaria
e mataria a sede na tua boca
e na língua me deliciaria

no tempo estancaria
tudo o que mora baldio e que vive sem poesia
e faria teu corpo meu papel
se pudesse escrever em mel o que nem deus leria

tanta gente, cores e sabores que por teus passos passaram
tão miúda mulher gigante sem limites ou fronteiras
os que passaram, pássaros ou gentes, deixaram teus pés mais leves
e tão distintos que pasmam de louvor por contigo andarem

quantas gentes em teus pés habitam?
em teus bolsos quantas gentes se escondem?
podem ser sertanejos, tropeiros ou caiçaras
sei somente que ali moram gentes que ali se entendem
e ali se encontram
e que no mundo dos gigantes fazem sua graça
e deixam igualmente pequenas as dores dos errantes

(para uma nova amiga de uma arte imensa e pura)

embora eu pudesse acreditar que ao fim da tarde,
antes tarde, pudesse ir embora
da vida ou de casa,
em catarse dar uma volta
ou não mais voltar à vida

embora quisesse ir-me embora, o quis dizer
a vida sempre tece uma teia mais firme
em laços de amarrar anzol
ou de amizade
todo o dia sempre nasce o sol
e depois que arde, ao fim da tarde,
fica somente o silêncio da luz
e o breu da minha eterna mocidade
que não encontra um porto, um abrigo
ou o lume de um farol