sem propósito

desinterstício
o espaço ocupa-se em vício
círculo de um nó e um risco
a corda toda para amarrar

desde que se fez início
o sol girou como um disco
lume celeste e um astro
seu rastro de luz a cegar

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o ranger do assoalho, o brinco que bate,
o trinco que gira.
o ferrolho e o passo no cascalho

olho que pisca a lágrima densa que invade – o fora

o teto ao certo é o piso do pássaro
céu de deuses ao espamos de um vento zunindo
é abrigo do limo e do tempo vivo indo e vindo
é o som do tártaro, do náufrago divino

sem sentido ao sentir-te
devora-me

dizia-me que eu pudera ser a luz do teu caminho
com um vaga-lume perambulando reluzente e sozinho
tristonho vagando sem teu passo para iluminar
hoje eu durmo sereno, sabendo que o mundo é pequeno
sabendo que teu carinho irei clarear

quando precisar, na hora mais escura, serei incandescente
para te gerar calor e luz quente quando o frio assombrar
posso ser o lampião, a labareda e o incêndio do sol
basta me anunciar no deslize dum olhar que entristeceu

posso ser o farol a te guiar ao porto e te evitar a ilha rochosa
e ser a mais caprichosa das lamparinas à óleo
me derramar sobre os inimigos teus, fervente, com ódio
e me fazer de breu só para que não te exponha os olhos
ao assombro de uma luz que feneceu em grimórios

e ressurgirei, potente e caudaloso como a lava de um vulcão,
alado sobre a crista das montanhas, das ondas e dos arranha-céus
ao teu lado pousarei, na nudez da tua carne e nos olhos do teu espírito,
para te iluminar outra vez como um simples abajur do quarto

pela vida
a beleza é ciência
quintessência
– apesar de sofrida

cozendo dia à noite ao dia à noite
à infinitude diminuta de pequenos açoites
e todos nós, sádicos depravados, aplaudimos
e rimos como crianças nessa montanha-russa

este picadeiro inevitável de leões e cordas-bambas
sobre todas as coisas levitamos – ainda que densos
evitamos a gravidade no trampolim da amizade
e ainda que propensos ao que já nos fadamos:
um dia o show acaba
mas quem sou eu para dizer que não deve continuar?

conta-me que a vida é uma ilusão
que é incrível, intensa
– hei de concordar, poeta
ela é a presença da própria Pandora aberta
não sua caixa, mas a desobediência
no próprio ventre aberto de Prometeu
uma chama imensa, uma verdade densa,
tão densa quanto o vazio do Deus

diz ainda que é bem isso, que ninguém tá nem aí
– hei de concordar, musa desta festa
a vida é uma ida com as águas de Heráclito
após a tormenta, uma barragem de impacto,
que deságua por meus dedos onde a palavra infesta

a luz se amiga à escuridão
lume e breu
fogo e mansidão
irmanados tal qual enamorados
devastados pela oposição

meu cigarro se incendeia
tal qual lampião
tal qual candeia
como um momento de oração

o anseio pelo fim me vagueia
espreita como caçador
por fim ataca e desnorteia
meu coração de estivador

poeta de poucas rimas pobres
de fuga voraz, destino assolador,
assim prossigo minhas sina
meu destino fugaz
meu caminho e amor

porta fechada eu encontrei em teu sorriso
em teus braços já ouvi negar-me abrigo
e ainda assim não aprendi

eu sei… devo esquecer, mas não consigo
eis que me vejo mal e incompreendido
iludido como quase sempre ouso ser

nenhum bolero seria mais preciso
do que tua voz falando em meu ouvido
alguma insanidade de prazer

acontece que esse bolero é um ruído
que em meu peito nem faz sentido
se a porta fechada eu voltasse a ver