dizia-me que eu pudera ser a luz do teu caminho
com um vaga-lume perambulando reluzente e sozinho
tristonho vagando sem teu passo para iluminar
hoje eu durmo sereno, sabendo que o mundo é pequeno
sabendo que teu carinho irei clarear

quando precisar, na hora mais escura, serei incandescente
para te gerar calor e luz quente quando o frio assombrar
posso ser o lampião, a labareda e o incêndio do sol
basta me anunciar no deslize dum olhar que entristeceu

posso ser o farol a te guiar ao porto e te evitar a ilha rochosa
e ser a mais caprichosa das lamparinas à óleo
me derramar sobre os inimigos teus, fervente, com ódio
e me fazer de breu só para que não te exponha os olhos
ao assombro de uma luz que feneceu em grimórios

e ressurgirei, potente e caudaloso como a lava de um vulcão,
alado sobre a crista das montanhas, das ondas e dos arranha-céus
ao teu lado pousarei, na nudez da tua carne e nos olhos do teu espírito,
para te iluminar outra vez como um simples abajur do nosso quarto

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pela vida
a beleza é ciência
quintessência
– apesar de sofrida

cozendo dia à noite ao dia à noite
à infinitude diminuta de pequenos açoites
e todos nós, sádicos depravados, aplaudimos
e rimos como crianças nessa montanha-russa

este picadeiro inevitável de leões e cordas-bambas
sobre todas as coisas levitamos – ainda que densos
evitamos a gravidade no trampolim da amizade
e ainda que propensos ao que já nos fadamos:
um dia o show acaba
mas quem sou eu para dizer que não deve continuar?

conta-me que a vida é uma ilusão
que é incrível, intensa
– hei de concordar, poeta
ela é a presença da própria Pandora aberta
não sua caixa, mas a desobediência
no próprio ventre aberto de Prometeu
uma chama imensa, uma verdade densa,
tão densa quanto o vazio do Deus

diz ainda que é bem isso, que ninguém tá nem aí
– hei de concordar, musa desta festa
a vida é uma ida com as águas de Heráclito
após a tormenta, uma barragem de impacto,
que deságua por meus dedos onde a palavra infesta

a luz se amiga à escuridão
lume e breu
fogo e mansidão
irmanados tal qual enamorados
devastados pela oposição

meu cigarro se incendeia
tal qual lampião
tal qual candeia
como um momento de oração

o anseio pelo fim me vagueia
espreita como caçador
por fim ataca e desnorteia
meu coração de estivador

poeta de poucas rimas pobres
de fuga voraz, destino assolador,
assim prossigo minhas sina
meu destino fugaz
meu caminho e amor

alucinações que vivi em vida ativa alerta de todo o que viria não bastou-me
alertaram-me as noites, as mal dormidas, da ira de estar sendo que quiseram-me ser
eu havia assinado o contrato com os ratos e já de rato vestia-me e me pus à plateia
INSANDECIDA com a pessoa ali tão desvalida de um passado, passando por aqui
e eu ouvia fria e amargamente a cada trecho da ironia que me rasgava um terço
enquanto outro orava por não ser a próxima vítima, o terço da vontade sucumbiu
esfolado à rua, lamenta, aberta, os carros passaram e a frase ali estava em meio aos Jardins
corroída como flor de campo frágil e potente em beleza quando suas iguais reunidas
ali fenecia o terço restante que atentou-se sobre vontade de viver
já não queria mais insandecer por estes vis que não olhariam por nós
somente atariam outros nós em mordaças em bocas passivas de quem não se vale mais
deixando que a coisa fosse levada como se o rio levasse à alta cachoeira final
vendo os últimos enredos de martírio que são por quem não vê razão de ser
barqueiros captalistas movem a jangada aflitamente a fim de chegar para a próxima tarefa sua
ia me guiando nas ruas sujas, acordando-me com remédios, um sorriso de lexapro, um dia para terminar dormindo em zolpidem
e eu me libertei… quis deixar-me ser navegado pelos braços das mil drogas, das do mal e das do bem
aí uma amiga estende a mão, o colo, o ombro, e minha frustração não gravei… nem lembro bem daqueles que lá estiveram
que comigo caminharam e até a maca branca de uma urgência tal – não queria ter visto,
era melhor, e me desculpem, terem-me dado esse destino

porta fechada eu encontrei em teu sorriso
em teus braços já ouvi negar-me abrigo
e ainda assim não aprendi

eu sei… devo esquecer, mas não consigo
eis que me vejo mal e incompreendido
iludido como quase sempre ouso ser

nenhum bolero seria mais preciso
do que tua voz falando em meu ouvido
alguma insanidade de prazer

acontece que esse bolero é um ruído
que em meu peito nem faz sentido
se a porta fechada eu voltasse a ver

a cigana leu-me a mão e disse-me que não há com que se preocupar
nada viu, nada vislumbrou, nada achou pertinente frisar
somente rimas pobres, versos tristes e um pranto a se queixar
um futuro não visto é o que há
nada que se queira, nem nada à declarar
nenhuma jura de amor, nem labor, nem sabor, nem porquê de estar
nenhuma cor que pintasse meu sorriso de uma alegria tosca
qualquer rima garota de uma idade que já não vem mais
nem haveria uma brisa fresca, um sorvete ao fim de tarde
somente o silêncio da solidão e um zumbido de moscas

nada vejo em meu futuro
nem algo que queira, nem saída, nem porquê
quiçá soubesse um porém, alguma fuga vã de querer-lo
acontece que já não me vejo velhinho, caquético e arrependido
de ter me deixado ao que qualquer outro se deixara ser vivido
uma dor angustiante de falhar com a chance única
a dor fustigante de chorar ante a parede final – sem uma porta –
de um corredor escuro de passado – o qual não se volta