todo novo será sempre velho
até que de novo velho será
antes que chegue o belo sonho
o velho estorvo te acolherá
tudo será novo de novo
de novo nada terá
sempre velho, tudo é joio
de trigo novo que plantará
todo era velho mesmo que novo
o efeito joão-bobo assim valerá
tudo era novo, oscila viscoso
nas paredes do tempo arranhar
todo o velho, todo o novo
tudo de novo, tudo outra vez
tudo de tudo, o pai e o filho
avô e pai, av’ôutra vez
Terra chama o Espaço
Terra chama o que não é Terra
de Espaço
Miram telescópios, farejam vidas
noutros planetas do Espaço
querem achar vida
(e não acham)
ângulos retos ou menos tortos
Riram ao encontrar uma pedra
um sedimento geomórfico, vivo
geofacto, abismal e plano
astromaníacos, antropofóbicos
Terra pleita pelo Espaço
em deleite telescópico
um dia sem querer o homem descobriu a fotografia
noutra vindoura data especulava suas aplicações
cliques daqui e dali e o instante se fazia
entre opor todas as dimensões e regressar às duas
anteriores à estas três oculares visões
a perspicácia da engenhoca valeria milhões
por um retrato bem mau-quisto de uma célebre mignon
em mãos da platéia a máquina caíra (se preparem)
somos todos fotografistas profissionais
e mais que isso, somos espiões furtivos
expomos suas intimidades nos info-jornais
mas maldita hora em que olhamos para cima
empunhamos com o indicador em xeque ao botão
com olhos famintos à lente fitaremos
e proliferaremos o web-vício do mico
vou à esquina brincar de gente
ver o movimento, as meninas,
ver o rotineiro acidente
encontro de carros sem buzinas!
vejo se logo volto, saio sem adeus
paro, vigilante, como um vigia
obeservo, rondante, como quem espia
vejo que ali estava mais que deus
ali da esquina via que os carros
harmoniosos se esquivavam
rodam e rodam e rodam equiláteros
pra surgir ao meu encontro
ou para sumir de onde os via
os passos transeuntes sempre mais cotados
farfalhavam em batuques de salto alto
chinelo de dedo, pisadas forçadas,
o passo era medido pela pressa
e a presa que corria do chinelo rosado!
logo um choro, um uivo, uma gargalhada
logo se enchera de breves supernovas
um beijo, um surpiro, o amor sem cupido
fervem os desejos invisíveis,
hormoniosos, os corpos similares
reprovam suas roupas e seus castos
a puberdade da esquina não mede asfalto
os carros ainda passam, as meninas
as buzinas, as folhas, as vizinhas
até breve
é assim que dão adeus os namorados
logo surgem aos meus olhos ofegantes
de mãos recolhidas, olhares distantes
até que um dia algum mande recado
fui a esquina olhar para a gente
pois nã ome reconhecia, olhei
olhei, atento, diretamente
para dentro do meu peito, vaguei
debruço em leito terreno
meu corpo crivado de vida
risonho como uma cripta
como um santo nu deitado em feno
porque há manhãs em que me desespero
fito o espelho e não me revelo refém
ouço atento ao que dizem meus anjos
mas não percebo o que me cai bem
insuflo meu peito com o ar d’alvorada
para melhor deitar o dia e resgatar
em meus minutos, segundos, desejos
o que melhor me vale guardar
velado, ousando o céu tocar
como um santo nu deitado em feno
aquieto meu corpo e me debruço
em leito terreno
no parapeito do céu
fitando o escudeiro
no cimo do céu a brilhar
meu codinome doutrora fora paciência
em meu árduo labor voluntário,
em benefício de um valor universal
por água a baixo escorre, lavando as mãos
meu entrenome autocrator de complacência
diverge de minha essência cognitiva
instintivo estou
voraz e objetivo,
tal rapina com a caça em alvo
posto a devorar o que a parvoíce dilacerou
será difícil ofertar a aventura etérea aos cães?
pois se recolhem satisfeitos as sobras dos urubu-reis
se lambuzam de luxúria pífia em camas roucas
e não conotam a vivacidade do que lhe é censura
que finjam meus pés pisarem em orbes de céu
na injustiça das noites em que durmo sem farol
o relento da treva, breu que me desassossega,
o mesmo oculto entre o peixe e o anzol
minha desgovernada vida, vai levada
por mãos álgebras sem vida, por economistas,
golpistas e famigeradas vontades e luxos
sendo levada minha vida ao desgosto final
passo em minha rua já rodada de automóveis
manchada de óleo frio de seus motores frios
aquelas que lá estavam já não estão mais
no passado foram todas nos carnavais
e por lá estão ainda, com seus corpos frios
o jogo de bola já não existe tampouco
ouve a prece dos loucos banais
soneto de tempo que não volta mais
fugira de minhas mão o que já era pouco
não trespaça minha modernidade demodê
toda fustigada entre boçais arlequins
multifacetados, juízes de botequins
denominam minha ousadia ilusória de um pranto clichê
minha piedade rogada às pragas
seleções, favelas e caçadas
piegas é a sua digna mãe
se fora ela somente de seu pai
ousara tangir minhas memórias
e meu passado deturpar
quem dera fosse esta tua história
saberia ao menos me tocar
largo é teu caminho e trópego teu guiar
jaz contigo o teu ínfimo detrito
ao qual chama sucesso, ao qual te escora
quando a quimera se descobre é mais fácil tropeçar
mas nem todos, tal eu, soubera
que é de pés calejados que se chega lá
meu pé toca o chão
como o som abraça meus ouvidos
meus ouvidos são de terra
e vívidos!
correlacionando as memórias
travestindo-as de idéias pertinentes,
Agora faz alarde nos anseios meus,
e aplaude em reverência ao que não tarda
de pé me saúda ingênua
-Vai futuro, que vale a pena!
e inutilmente vou perseguindo
dura e furtivamente, perseguindo
o que está exatamente uma fração,
de tempo ou espaço, à frente de mim.
meu Hoje, velho amigo
que nunca esteve comigo
quem estava era Ontem, este sim…
sempre esteve, duramente hoje não está
mas amanhã Ontem estará,
sempre assim,
todavia,
inquietar-me-á
Ontem chega amanhã
Amanhã nunca chega
o Hoje sempre está,
não creio que em palmos se meça minhas mãos
são medidas em vertiplanos raios de aurora
e meus dedos são apenas finesses luminosas
minhas garras são brasas impalpáveis,
são falácias estúpidas, sem intenção de ferir
minha carícia, Tácita, ostenta um perdão
abrigam milícias fustigadas pelo amor,
nela convivem arcanjos sem par,
atiçam em labareda de Sabá suas incúrias
seus martires, fantasias e juras