Vagner Heleno

O Passo do Caminho

passo em minha rua já rodada de automóveis
manchada de óleo frio de seus motores frios
aquelas que lá estavam já não estão mais
no passado foram todas nos carnavais
e por lá estão ainda, com seus corpos frios

o jogo de bola já não existe tampouco
ouve a prece dos loucos banais
soneto de tempo que não volta mais
fugira de minhas mão o que já era pouco

não trespaça minha modernidade demodê
toda fustigada entre boçais arlequins
multifacetados, juízes de botequins
denominam minha ousadia ilusória de um pranto clichê

minha piedade rogada às pragas
seleções, favelas e caçadas
piegas é a sua digna mãe
se fora ela somente de seu pai
ousara tangir minhas memórias
e meu passado deturpar
quem dera fosse esta tua história
saberia ao menos me tocar

largo é teu caminho e trópego teu guiar
jaz contigo o teu ínfimo detrito
ao qual chama sucesso, ao qual te escora
quando a quimera se descobre é mais fácil tropeçar
mas nem todos, tal eu, soubera
que é de pés calejados que se chega lá

meu pé toca o chão
como o som abraça meus ouvidos
meus ouvidos são de terra
e vívidos!


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Estar sem Tempo

correlacionando as memórias
travestindo-as de idéias pertinentes,
Agora faz alarde nos anseios meus,
e aplaude em reverência ao que não tarda
de pé me saúda ingênua
-Vai futuro, que vale a pena!
e inutilmente vou perseguindo
dura e furtivamente, perseguindo
o que está exatamente uma fração,
de tempo ou espaço, à frente de mim.

meu Hoje, velho amigo
que nunca esteve comigo
quem estava era Ontem, este sim…
sempre esteve, duramente hoje não está
mas amanhã Ontem estará,
sempre assim,

todavia,
inquietar-me-á
Ontem chega amanhã
Amanhã nunca chega
o Hoje sempre está,


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Fino Trato

não creio que em palmos se meça minhas mãos
são medidas em vertiplanos raios de aurora
e meus dedos são apenas finesses luminosas
minhas garras são brasas impalpáveis,
são falácias estúpidas, sem intenção de ferir

minha carícia, Tácita, ostenta um perdão
abrigam milícias fustigadas pelo amor,
nela convivem arcanjos sem par,
atiçam em labareda de Sabá suas incúrias
seus martires, fantasias e juras


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Quimeras Reais

estou catando bitucas de cigarros apagados
como quem junta seus cacos,
estilhaços de amanhã

junto meus cavacos, cortados, lascados
pedaços de pele, carne, larvas e ban-
cada, onde me reservam frio e nu
conservado tanto quanto me conservei

no fim das contas os meus retalhos
estariam melhor ou mais talvez
que antes fora o meu passado
meu corpo debruçado já vale mais
mais que três vinténs

estou catando varizes nas calçadas
das raízes das árvores congestionadas
entupidas de cimento, brita e tan-
tô esperando enraizar também
tou aguardando plantado o meu dia
em que faliram os meus destinos
quando não se cruzarem com os de ninguém

aguardo sedendo, fazendo o que ninguém faz
guardando segredos, malditos segredos
dos quais eu jamais falarei


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incompleta

percorreste indubta morada
mas não lhes fixou razão
teu passar foi opróbrio
e tua fé ignorante

caminhaste por dentre alcovas
e toda cisma lhe convinha
achardes o correto em lábia profana
e denegriste a chaga que sangra
pobre fora tua ciência
doutrora impugna o era


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Seu Fulano

o alberto das pernas, dos braços e dos olhos
não mais o é das pernas e dos braços e dos sonhos
alberto é do impresso, do negócio e do labor
perdeu o cheiro, o óscio, o tempo inteiro
hoje ele é o sócio do lucro e amante do corretor

a ana do busto, do rosto e da cintura, ingressou
no labor das noites, das tetas e do beijo envenenado
incinerou as culpas, trocou com as juras, blefes de amador
hoje é ela a moça mais abrupta na cama de um bom pagador

o juca do samba, da morena, da serenata na janela
na rua e na travessa, na macumba e o dia inteiro
era o juca, o travesso, malandro e o avesso
hoje é o operário sem tempo, só o cansaço
ele é o juca da obra, do tijolo e do dessabor

e tal e tal, a pessoa da pessoa não o é
o é o tal e o tal e o feitor demodê
e o mal é a pessoa, a pessoa por assim o ser
e ser o osso e a carne e a paixão não rende
sobreviver é um ato de escravidão sem amor

vive quem é livre sob o ser
vive o ser que é pessoa
e não caçoa quando quer
a vida, a vida, não é o preço
é a graça de estar e ser


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Minhas Almas

se só estou? não
tantas almas tenho
que não as posso contar
o meu motor espiritual é cosmo
o que move o vento e a treva
e a luz que se enerva aos poros
meu sangue é lendário, estrela
pó e poeira de estrela, seja lá
o que me espera por fim…
eu já estou fazendo.

minhas almas soam pranas
soam aguçosas lamparinas de som
meu rastro é irreversível
interpreta a alma lasciva forma
ou afaga calma o que precisa


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O Chão da Causa

o chão da cidade
              da cidade do chão

a larva da carne
               da carne à cidade
o solo da pulga
               da pulga é o cão

o solo do cão
             do cão da cidade
que ladra pro poste
                   (mas mija no chão)

 

as esquinas perpendiculam suas veias
cruzadas as veias, a hemorragia, a vaporização
umbanda, unibando, urbano chão
na veia da cidade, no poste, no limo
do poste é o cimo, do cimo é o vilão

do urbano chão, do poste é o cimo
do chão é o menino, do menino é o cão
do cão é a pulga, da pulga é a pata
da pata é o chão, do cume é o avião


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Deus e o Louco

Bom dia, humanos, sou Deus.
vim dizer adeus, já não resisto
entrego em vossas mãos o arbítrio
e as rédeas das nações

na mentira lavaram meu nome
seus pastores e padres, tantos
poucos reconhecem meu ser e nã0-ser
pelas eras nunca havia visto
tamanha iniquidade numa só espécie

os loucos portadores de sua epifânia
insustentam em seus humanos corpos
sabietude tal que seu código não distingüe
o meu ser do não-ser, só a alma sabe…
o louco é a pura essência no lodo

 

 

*hoje, 4 anos de blog.


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Calados

o que me engorda não são laticínios
nem tampouco carboidratos
o que me estufa, me corrói em desdobre
das vezes em dúzias no noticiário
o infanticídio, o corrompido deboche
o grito à capela e a janela cadeada
o medo do medo e a inculpa currupta

tramelas celadas pelo guiso digital
o aperto de mão fora abolido
mas a ignorância não,
é benvinda postura, a boca custura
os ouvidos perfuram,
que haverá de mim se não a loucura?

e a dita cuja que nunca parou de esperar
continua esperando… morre
não viveu, esperou, nada fez
nada além da espera que é consumada em si
somente espera sempre será

nem o sei mais, contra que moínho luto
e se devo lutar ainda…
à espera de vencer me vejo ímpar
talvez um dos três que não cansam de sonhar


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