Roda Viva

roda viva parou
estagnada no ar
impedida de rodar
o mundo inteiro calou

roda gira não mais
não mais roda a girar
não gira a roda
há roda, não mais

viva a roda viva
a roda gira
a roda é mais
que a brisa
dos aquietadores,
do arquiteto dos famintos
o menestrel de labirintos
a roda vai, a roda é viva

gira mundo, gira o sol
a lua gira ao meu lençol
e me guia na noite proibida
em que calo a poesia do homem banal

pois é, em que consiste a vida
se vazia não se há um porém
um porém para se estar

e lutar para que se viva
que se sorria,
de que vale a vida
sem amor a se amar?

ver todos os vinténs à queimar
em troca da poesia do sorriso
da criança, pois é preciso
um sorriso para não amargurar

Navega

pela onda que são os braços do mar
a vida me carrega e segue à navegar
meu corpo transeunte navega
fora do ninho, fora do ar

o que me cabe é uma canção
qual canção que eu não fiz
a onda vai e vem do mar
e na rebentação nasce por um triz

o rebento do oceano é a onda

meu barco é meu corpo
à deriva, jangada no mar
o meu destino é o porto
o meu sonho é chegar

meu destino é o porto
o meu sonho é chegar
a minha fé é de poucos
pois poucos estão a sonhar

Operário

de repente o intervalo dos dias cessaram
romperam-se os laços da vida
a boca fria não mais chamou-a
de repente os dias inacabaram

repentinamente cruzaram-se os braços
vôou-se por entre paredes de espaço
calou-se num bocado de tempo
os dias sem seu ungüento
ao contrário do sempre
nada como até nunca mais

Protoprática Poesiática

se sou o que sou
não me importa saber
me importa fazer
não o que passou

se faço o que faço
não sei, não recordo
me encontro a bordo
à quase um maço

se me encontro me perco
defenestro minh’alma
latejante alma
perambulante no eco

lateja a alma vívida
junto meus cacos
no rio em barco
pareço tão crítica

pareço
mas sou o que sou
se sou o que sou
reconheço

esqueço da épica
paródia de hípica
dialética, retórica
árida, mímica
prosódia hermética
caquética
arrítmica
poética retórica
esquelética
sem vida

Toda a alegria do mundo

aquela lembrança que tínhamos
que anda esquecida pela vida
esperando, sendo velada pelo tempo
esperando apagar a luz

aquele momento sem nada de costume
que andava despercebido, irrotinado

quando acaba a luz
o meio-fio se inutiliza
o campo precisava tomar o ponto
para vermos a que ponto chegamos

toda a tecnologia, toda logia
toda a simetria genérica,
toda hermética, ética, poesia
todas na lama que o asfalto revelou

já basta ergonomia, grafia
estaca zero para o acendedor automático
um viva aos que plantaram uma flor neste momento
e a aqueles que a cheiraram profunda e imensamente

cerrem as complacências, incoerências
toda a cartografia lunar sem apreciação
tome asco aos que preferem à boemia
uma boa dose de religião ou hipocrisia milenar

e cepem aquelas roupas da modinha
cortem-nas em pedaços e façam uma colcha
troquem aquela velha caixa de idiotização
por um punhado de folhas em branco
ou por um punhado de escritos que lhe valha atenção

chame sua família e vizinhança
do velho à criança
e sentem-se no jardim
como quem não quer nada de nada
sabendo que tem tudo de tudo
todos juntos, o todo
toda a alegria do mundo

Indialização

meu índio de mercado
na vitrine, estampado
reza ave maria
e faz sinal da cruz

meu índio, meu coitado
veste a camisa da seleção
e torce pelo romário
meu índio com nação

meu índio é assustado
com reservas da união
é sem cultura
esbranqueado
meu índio é mal culpado
dorme em rede
olhando televisão

meu índio vota e faz eleição
estão europeizados
de índio… nada mais não

meu índio vota
veste a seleção
reza uma lorota
e quando precisa
se fantasia
de índio
e dia 19 pinta na televisão

Chuvas

ouça a sinfonia dos pingos!
percebe-a!

escolhe os pingos quando a tocar o chão
acordam com tua canção da chuva
escolhe sensível o pingo certo
os que lhe acordam com o coração

deixa repercutir nas folhas teus tambores
e nas poças rasas tuas novas sonorizações
de corpo todo atento procura tua melodia
no batuque das calhas d’águas ou
até mesmo na metálica telha de zinco

procura tua canção na chuva que te dá
todos os tempos, todos os compassos
deixa que te envolva a úmida sinfonia
na sintonia dos espaços,
ritma teus corações
e faz do gotejamento celeste um passo
antante, compasso

Jaoamo da Paixão

não existe da silva
nem de barros
não importa rodrigues
o sobrenome de tavares

quero o codinome
o codinome de Antares
pois não me importa a raiz
que me importa é árvore

minha mentira vasconcellos
vaidosa velhice de quadros
quadrados queridos
esnobes de carvalho

antes os fossem nos barris
pois meus cantis mais felizes seriam
sem seus gargal(h)os

não se ofendam os vieiras
nem os silva e costa
nem limas, nem duartes

não me vale tua tradição
teu nome
teu passado não teu
teu caráter e presente
desde que presentes
me valem mais que todos teus brasões
que todos os teus ardis

desde que seja um contraventor

jaoamo da paixão

n.a.: (estou opondo a sobrenomenclatura e não os sobrenomenclados com os seus sobrenomes)