Efeito

todo novo será sempre velho
até que de novo velho será
antes que chegue o belo sonho
o velho estorvo te acolherá

tudo será novo de novo
de novo nada terá
sempre velho, tudo é joio
de trigo novo que plantará

todo era velho mesmo que novo
o efeito joão-bobo assim valerá
tudo era novo, oscila viscoso
nas paredes do tempo arranhar

todo o velho, todo o novo
tudo de novo, tudo outra vez
tudo de tudo, o pai e o filho
avô e pai, av’ôutra vez

Terra chama

Terra chama o Espaço
Terra chama o que não é Terra
de Espaço

Miram telescópios, farejam vidas
noutros planetas do Espaço
querem achar vida
(e não acham)

ângulos retos ou menos tortos
Riram ao encontrar uma pedra
um sedimento geomórfico, vivo
geofacto, abismal e plano

astromaníacos, antropofóbicos
Terra pleita pelo Espaço
em deleite telescópico

Onde os brutos não tem vez

com certeza e pressa
até o fim da linha
o horizonte definha
delínea consoante, exime-a

na certeza injusta,
da inglória passiva,
a luta cativa
onde os brutos não tem vez

idéias de filosofia
acolhem ébrias mentiras.
complacência intuitiva,
a decência dos cegos

intima-se a vida
a brindar cativa
sem saída ou possibilidade

vejo fustigada no horizonte
aquilo que um dia fora chamada
liberdade

Onze Horas

às onze horas de um dia nove
de um dia novo, décimo mês
o calendário anda, cadenciando
alegrando o dia com amor
amortecendo a vida
tecendo o tempo, a vida anda
ela canta, celebrando Luiza
lembrando de que é preciso lembrança
precisando da esperança que exito
ela, vida, Luiza, com ares de anjo
vai me dizendo baixinho, pairando,
-vai que é preciso, amor, vai
e o tempo seguindo meu passo
vai passando
e eu precisando de abrigo
não, o colo de Luiza é um mundo
nele fantasio, realizo, acordo
durmo, aliso o seio da vida
luiza, avisa-me que é preciso
que é preciso bem mais que um anjo.

Fotografias

um dia sem querer o homem descobriu a fotografia
noutra vindoura data especulava suas aplicações
cliques daqui e dali e o instante se fazia

entre opor todas as dimensões e regressar às duas
anteriores à estas três oculares visões
a perspicácia da engenhoca valeria milhões
por um retrato bem mau-quisto de uma célebre mignon

em mãos da platéia a máquina caíra (se preparem)
somos todos fotografistas profissionais
e mais que isso, somos espiões furtivos
expomos suas intimidades nos info-jornais

mas maldita hora em que olhamos para cima
empunhamos com o indicador em xeque ao botão
com olhos famintos à lente fitaremos
e proliferaremos o web-vício do mico

Até Breve

vou à esquina brincar de gente
ver o movimento, as meninas,
ver o rotineiro acidente
encontro de carros sem buzinas!

vejo se logo volto, saio sem adeus
paro, vigilante, como um vigia
obeservo, rondante, como quem espia
vejo que ali estava mais que deus

ali da esquina via que os carros
harmoniosos se esquivavam
rodam e rodam e rodam equiláteros
pra surgir ao meu encontro
ou para sumir de onde os via

os passos transeuntes sempre mais cotados
farfalhavam em batuques de salto alto
chinelo de dedo, pisadas forçadas,
o passo era medido pela pressa
e a presa que corria do chinelo rosado!

logo um choro, um uivo, uma gargalhada
logo se enchera de breves supernovas
um beijo, um surpiro, o amor sem cupido
fervem os desejos invisíveis,
hormoniosos, os corpos similares
reprovam suas roupas e seus castos
a puberdade da esquina não mede asfalto
os carros ainda passam, as meninas
as buzinas, as folhas, as vizinhas

até breve
é assim que dão adeus os namorados
logo surgem aos meus olhos ofegantes
de mãos recolhidas, olhares distantes
até que um dia algum mande recado

fui a esquina olhar para a gente
pois nã ome reconhecia, olhei
olhei, atento, diretamente
para dentro do meu peito, vaguei

No Cimo do Céu

debruço em leito terreno
meu corpo crivado de vida
risonho como uma cripta
como um santo nu deitado em feno

porque há manhãs em que me desespero
fito o espelho e não me revelo refém
ouço atento ao que dizem meus anjos
mas não percebo o que me cai bem

insuflo meu peito com o ar d’alvorada
para melhor deitar o dia e resgatar
em meus minutos, segundos, desejos
o que melhor me vale guardar

velado, ousando o céu tocar
como um santo nu deitado em feno
aquieto meu corpo e me debruço
em leito terreno
no parapeito do céu
fitando o escudeiro
no cimo do céu a brilhar

Karmicídio

meu codinome doutrora fora paciência
em meu árduo labor voluntário,
em benefício de um valor universal
por água a baixo escorre, lavando as mãos

meu entrenome autocrator de complacência
diverge de minha essência cognitiva
instintivo estou
voraz e objetivo,
tal rapina com a caça em alvo
posto a devorar o que a parvoíce dilacerou

será difícil ofertar a aventura etérea aos cães?
pois se recolhem satisfeitos as sobras dos urubu-reis
se lambuzam de luxúria pífia em camas roucas
e não conotam a vivacidade do que lhe é censura