estou catando bitucas de cigarros apagados
como quem junta seus cacos,
estilhaços de amanhã
junto meus cavacos, cortados, lascados
pedaços de pele, carne, larvas e ban-
cada, onde me reservam frio e nu
conservado tanto quanto me conservei
no fim das contas os meus retalhos
estariam melhor ou mais talvez
que antes fora o meu passado
meu corpo debruçado já vale mais
mais que três vinténs
estou catando varizes nas calçadas
das raízes das árvores congestionadas
entupidas de cimento, brita e tan-
tô esperando enraizar também
tou aguardando plantado o meu dia
em que faliram os meus destinos
quando não se cruzarem com os de ninguém
aguardo sedendo, fazendo o que ninguém faz
guardando segredos, malditos segredos
dos quais eu jamais falarei