Seu Fulano

o alberto das pernas, dos braços e dos olhos
não mais o é das pernas e dos braços e dos sonhos
alberto é do impresso, do negócio e do labor
perdeu o cheiro, o óscio, o tempo inteiro
hoje ele é o sócio do lucro e amante do corretor

a ana do busto, do rosto e da cintura, ingressou
no labor das noites, das tetas e do beijo envenenado
incinerou as culpas, trocou com as juras, blefes de amador
hoje é ela a moça mais abrupta na cama de um bom pagador

o juca do samba, da morena, da serenata na janela
na rua e na travessa, na macumba e o dia inteiro
era o juca, o travesso, malandro e o avesso
hoje é o operário sem tempo, só o cansaço
ele é o juca da obra, do tijolo e do dessabor

e tal e tal, a pessoa da pessoa não o é
o é o tal e o tal e o feitor demodê
e o mal é a pessoa, a pessoa por assim o ser
e ser o osso e a carne e a paixão não rende
sobreviver é um ato de escravidão sem amor

vive quem é livre sob o ser
vive o ser que é pessoa
e não caçoa quando quer
a vida, a vida, não é o preço
é a graça de estar e ser

Minhas Almas

se só estou? não
tantas almas tenho
que não as posso contar
o meu motor espiritual é cosmo
o que move o vento e a treva
e a luz que se enerva aos poros
meu sangue é lendário, estrela
pó e poeira de estrela, seja lá
o que me espera por fim…
eu já estou fazendo.

minhas almas soam pranas
soam aguçosas lamparinas de som
meu rastro é irreversível
interpreta a alma lasciva forma
ou afaga calma o que precisa

O Chão da Causa

o chão da cidade
              da cidade do chão

a larva da carne
               da carne à cidade
o solo da pulga
               da pulga é o cão

o solo do cão
             do cão da cidade
que ladra pro poste
                   (mas mija no chão)

 

as esquinas perpendiculam suas veias
cruzadas as veias, a hemorragia, a vaporização
umbanda, unibando, urbano chão
na veia da cidade, no poste, no limo
do poste é o cimo, do cimo é o vilão

do urbano chão, do poste é o cimo
do chão é o menino, do menino é o cão
do cão é a pulga, da pulga é a pata
da pata é o chão, do cume é o avião

Deus e o Louco

Bom dia, humanos, sou Deus.
vim dizer adeus, já não resisto
entrego em vossas mãos o arbítrio
e as rédeas das nações

na mentira lavaram meu nome
seus pastores e padres, tantos
poucos reconhecem meu ser e nã0-ser
pelas eras nunca havia visto
tamanha iniquidade numa só espécie

os loucos portadores de sua epifânia
insustentam em seus humanos corpos
sabietude tal que seu código não distingüe
o meu ser do não-ser, só a alma sabe…
o louco é a pura essência no lodo

 

 

*hoje, 4 anos de blog.

Calados

o que me engorda não são laticínios
nem tampouco carboidratos
o que me estufa, me corrói em desdobre
das vezes em dúzias no noticiário
o infanticídio, o corrompido deboche
o grito à capela e a janela cadeada
o medo do medo e a inculpa currupta

tramelas celadas pelo guiso digital
o aperto de mão fora abolido
mas a ignorância não,
é benvinda postura, a boca custura
os ouvidos perfuram,
que haverá de mim se não a loucura?

e a dita cuja que nunca parou de esperar
continua esperando… morre
não viveu, esperou, nada fez
nada além da espera que é consumada em si
somente espera sempre será

nem o sei mais, contra que moínho luto
e se devo lutar ainda…
à espera de vencer me vejo ímpar
talvez um dos três que não cansam de sonhar

Cidade Qualquer

caos… urge a cidade
acorda cinza, suja e sua
toda minha, linda, podre e sua
um sentimento de outracidade

cidade qualquer

a partir do quarto d’hotel
braseiro meu cigarro, tequila e a mão
sustento impune dor cá em punho
a tinta escoa pela esferográfica prisão

duvido da vida em sua promessa
faço, não rezo mais, espero ocupado demais
talvez tanto que nem perceba
as ruas me passam as pernas