do Oculto

céu acrílico
sol de fluor
suor, parfum
defun’
untado
azul-oleoso

sol, jardim
terra, capim
suor etílico
jasmim, orvalho
enfim, manhã
chuva, em guarda
londres amanhece em neblina

vôo profundo
enjôo, bumbo
toar, clarim
preso um
tormenta
vi a jarra
derramar-se em mim

asas, passarin’
ar, trampolim
lago d’ornamento
represa, leito
enfim, é vã
fenda, e chave
castelos emergirão

Esse Amor

já não estou apaixonado
a paixão passou por aqui
foi-se a tolerância cega
foi-se o ardor em dormência

fica impregnado em minha pele
um suor latente de torpor
chega a saudade lenta, doce
chega o que chamo amor

aquele que tenta ver com o coração
já não mais cego ou desenfreado
agora já o é sensato, racional
é o amor de nós, homens, lascivo

minha boca já não precisa mais de fervores
meu coração já nem palpita eloqüente
segue em frequência embudita em teu passo
bate cada vez que tocas ao chão

e quando corres, sei que corres,
contrário ao vetor de meus passos,
palpita emocionante, os olhos reviram
se reavivam meus braços e lhe aperto

quase que instantaneamente reconheço
amar é mais que mal dar os ouvidos
é retrucar, afim de poder crescer para o sempre

A Pira

quando sairmos de nossas casas
e não vermos sol,
        nem nada mais que nada

quando incitarmos o amor
e não nos abraçarmos,
        nem nada mais que nada

quando chorarmos nossas aflições
e não houver mão estendida,
        nem nada mais que nada

quando pedirmos perdão à ninguém
e não ouvirmos resposta,
        nem nada mais que nada

quando ouvirmos uma canção condizente
com a fé e a verdade de um povo
e não unirmos vozes, nem nada mais

é o dia, nada mais que o nada
vazio que nos enxarca e lava
nada sobra, nada mais que brasas
quando o vento sopra e não arde
não estala, mas não esgota

uma canção intrigante nascerá
com a mão e a paixão de um tesouro
guardado no corpo, na anunciação
o o sol brilhará tal o ouro seduz
e o próprio coro se abraça,
se enlaça as mãos, se ouvem murmúrios
numa canção de resposta,
incitada a vitória

todos pisamos no mesmo chão,
sob o mesmo o céu, ante o mesmo mar
todos ouvimos a voz e cantamos
ousamos ouvir nossa fé e oração

somos humanos, somos deuses operários
somos arquitetos, malabaristas
luminosos artistas, candelabros
acesos os lumes, somos pira do passado
somos novos, somos azuis,
somos interplanetários.