Eu Grito

grito atento aos que um dia tentarão me calar
gripo pelos que nunca me darão ouvidos
aos que não querem ao menos tentar
grito atento nos passos do inimigo

gritei outrora pelos que choram,
pelos que se derramam aos delitos
hoje berro aos que pisam, aleijam e deprovam
grito com os que uivam em atrito

empunharei a bandeira do ato e da poesia
da flor do sol, da estrela, da vigília
dos que oram e não pedem, dos que fazem
a bandeira da revolução que se aflora

grito contra quem nos põe coleiras
algemas e nos afagam com mão pesada
grito com os que tem sede, fome e insônia
com os que dão adeus à hipocrisia diária

grito com os que fazem arte
arte da liberdade,
arte da memória

Revolução! A alma armada…

seremos porosos edemas
sulfúricos ácidos colíricos
enfizemas pulmonares agudos
dores em todos estágios letais

viera à nós vossos contos lúgubres
e nossa resposta é um não, jamais
foste câncer por demais impune
a nossa cura, a contra doença
a nossa busca, a impune idade
a juventude será a erma paz

seremos cólera sem algemas
sonoros poemas à te cepar
tuas audiências públicas não serão
em nós tua trapaça não chegará

a torre cai em nossas mãos
somos futuro, o embrulho terás
a úlcera somos, ó santa cidade
tua forma se deformará

nosso ódio é amor fortuíto
se não pela sã forma, pela dor
assim o seja, o aprenderá

A Lei

quero me mudar para um mundo sem leis
sem juízes, sem patrões e sem relógios
um mundo onde a lei seja a vida
o juíz seja consciência
o patrão seja o próprio viver
e o relógio…os galos e a sombra

eu estou vivendo insano
se o mundo é sanidade
eu vivo infeliz
se o mundo é felicidade

não estou hipnotizado
nem sou hipocondríaco
e o mais bizarro…
não vivo de palpites
ou de labor desnecessário

a única lei que pode me julgar
não está escrita, já se sabe
a lei escrita é para psicopatas
para coxos de consciência
fracos, dementes,
imprestáveis à si próprio
preguiçosos, avarentos, soberbos

a lei escrita é para os mundados,
materialistas, preconceituosos
é para aqueles que se fazem bestas,
para os sobreviventes de Babel

a única lei que me julga é do Todo
a lei do globo, do sol, da vida
a lei do veneno e do antídoto
a lei do aviso e do erro, a lei
a lei sem meio termo,
meu eterno juiz, Eu.

Jesus Cristo breve cairá…

junto com cristo volta o seu negativo
a mesma chance imodesta do crime
é a testa virgem de completo perdão

o filho do homem é uma arma potente
ao nascer ou poente, flagela sem par
porém dum inocente deslize o faz vingador
e seu sangue colhido em terra será drenado

nesses dois caminhos tão unos trilhará
o filho do breu ou do lume, da casta ou da besta
na testa o insumo do ódio, o suco do consumo
o soco estampado, a metralhadora apontada

creio relutante seu incline criativo
do que mais criador seu pai lhe concedeu
sua dor e tortura foram incompreendidos
furtados, logrados e ainda assim, vendidos
a fé na sua lança fatal é tão maior que seu vestígio

o duplipensar crístico é íntimo demais
são duas sortes em um só fascínio
judas é a chave, a sua escolha…
perdoarás o "falso amigo"?

mundo tolo e contradito,
tão firme de suas perícias
porém tão fraco e fácil
é opulento e homicida
cai no conto do vigário
tão frágil quanto imbecil
tem orgulho e vaidade em demasia
cria fantasmas, cria vazios espasmos
e até as fantasias para irrealizar
tem gula, preguiça e avareza

continuem assim… e continuem
"Senhor, tende piedade de nós…"
mas poxa, ‘tá difícil desde então
mais fácil virá cristo em "cramunhão"
pois espelho o é de seus fiéis
e que bela reflexão…
somos cheios de vícios
e nos deitamos por vínculo à mundanização

Amargarás o teu futuro passado

nossa chibata falará mais alto que o grito de todos os povos
estes já ensurdecidos pelo próprio grito de pavor e segredo
nossos açoites serão tão largos como fendas na terra
nossa dor tão doída que nem a última gota cairá
a firme certeza que teremos é que a morte tardará a chegar

é pecado morrer, é proíbido amar, falar, pensar, escrever, divagar
nossa miséria é fundida entre a fuligem de nossos ossos
e a memória irreacionária de nosso passado incrédulo
crea somente na vã filosofia do outrono-inverno
crea somente que o futuro é premissa de melhora
afora discorro entre os becos, afim de chorar
mas colho infortuíto perigo, meu choro é inimigo
o estado não o quer!

Seu Babaca!

conivimos por instinto
imóvel e retraídos
fronte ao destino
somos moleques,
meninos…

n’algum contrato não me denominei
nem nome ao menos tinha
n’alguma cruz não me ofertei
nem desespero ainda tivesse

nasci virgem no estado
no sistema democrático
vivo conquanto, passivo,
ameno e amigável, pois
não deslumbro o nocivo ar
das fronteiras e dos inimigos

meu abrigo é o corpo que vesti
minha nação é um caco de vitral
nem terra, nem américa,
nem minha quimera ocidental

minha nação é um caco de vitral
na qual a luz humana impermeia
faz-se um colorido abismal
é o circo que me armam para calar

meu caco, minha divisa, minha estrela
minha parede e meu quintal, minha
e de mais ninguém seria
conivo por instinto ao de ninguém

o imposto e o desgosto, eu conivo
convivo com ar de sobreposto
porém, sobrevivo

a taxa, a regra e a vitrine, eu sustento
os proventos são por demais antigos
porém, os agüento

o coito, o gozo e o riso, eu invento
momentos são estes perdidos
todavia, pois, o rebento

nascido e criado é o consenso
é o inadverdido dever
por hora permitido
criar um rebento para padecer

o prato, o trago e o fumo, consumo
insumo do sistema ao meu viver
porém, veneno, desconheço saber

a moto, a tela e a mídia, desejo
por mais no mundo que se há de querer
n’algum dia chego para estrelar
(quem sabe moribundo)
quando o drama lhe quiser filmar

hoje sonhei, num delírio imundo
que era somente um zumbido
rondando a periferia dos fundos
era somente um escravo qualquer
fardado de gente
comento contente
o que me der

hoje
caio na real
meu vôo não era vôo
era abismal estrondo
era somente um serviçal
um carniceiro medonho
uma pulga de vitral
um fruto de coito de fuga
um alívio escrotal, meu pai
minha mãe, ambos irreais
fascinados pelo fascismo dos dias
da monárquia maquiada do capital
hoje caducam, hoje em dia, caducam
e caducaram mais e mais até o dia letal
quando o estado mais que nunca sente leve
um número à menos, menos gasto, menos mal
fora um cpf, fora um serviçal
a boçalidade da mídia é monumental
atendera bem sua demanda
mais um que se manda
sem que se toque do seu umbral

O Tele-Redendor

nem a treva salva a liberdade
não mais! o cárcere também é noturno
todavia estivera zelado sem cautela
aninhou em ti a víbora quimera

e bem sabes e sempre soube, era ela!
no teu colo apaziguou o louco, calou-o
nem moveu o moinho de forma avessa
sustentou a cabeça da engrenagem
por suspeitar do decréscimo de valia
que não haveria tido acaso
acaso não acolhesse os cadeados
em sua sacra covardia!

vais comprar assim tua anti-aforria
vais aprisinar, negro e cáucaso,
em uma alcova enfadonha de vidro
e vais querer e vais amar teu carrasco!

Mediocridade!

faz-se média de tudo,
por isso somos
essencialmente
medianos, medíocres

um cavalo de força
porém se concebe cavalo
de que a força se suspeita
se suspeita ser mais de um

na média de todas as coisas
somos medíocres, todos padrão
ai de quem cai fora da risca
xispa, xispa…
um anormal entre nós, não!

na média, por isso tem-se a mídia
pra intermediar a mediocridade
intermídia, padrão dos medianos
o espelho que se espelha
mediocridade!

A doença do vão esforço no tempo perdido

a felicidade cá nessa sociedade
é um saco, de fundo falso
não se segura e se rompe no corpo
a doença do vão esforço no tempo perdido

morre todas as glórias, a fatura vem tarde
só se sabe da derrota depois de viver derrotado
consedido os tempos e sorrisos à não dá-los
deixando-os de lado pela postura de pacífico fraco

negar-se-ão até a morte abrigar sua falência
após seguir dentre o fosso, em queda, crendo
que no rio da vida se estava, aforgar-se-ão
no limo e na poeira de suas vitórias inúteis

irrealidade, jogam um jogo de virtuose plástica
que só se autossustenta, só equilibra-se entre si
desarmonica natura, fede o lodo da espessa morada
o corpo perece enquanto o espírito se ilude

caminho é de fato desconhecido, opõe aos por fins sociais
o caminho do espírito não deseja casa, carro ou caixão
quer-se-á livre de agregados desvalores, quer-se livre
oposto está o humano, cativando-se pela finita razão

seguem as correntes, cegos em correntes
ouvem-se murmúrios de lamentos, eles vão
sem pé nem cabeça encontrar a ilógica busca
e saber-se-ão sem nada além do que perdera

pelas ruas vão driblando outros corpos transeuntes
acatando regras irreais, sem sombra de dúvidas,
a dúvida, lhes foi ensinado, é faltar com respeito
pedem fé, pedem confiança, pedem abdicação espiritual
pedem voto pelo próximo feto feito
que seja dejetado mais um escravo,
dejetado pelo dejeto que é pré-eleito à miséria total

aceitam regras, aceitam condições, taxas, impostos
programas, conceitos, permitem-se como cobaias pré-feitas
não assinam contratos aos donos-da-terra-daqui
mas mesmo assim, vivendo vão pagando pra viver

nem sequer desconfiam das suas verdades, nem sequer
alimentam a mão que apunhar-lhes-ão no futuro
sustentam o fomento da tirania dos poucos
e vão como peões, cedendo sua chance viva
pagando caro, vendendo-se à bancarrota de futilidades

O Mundo de Casas Vazias

nós somente sentimos
a linha tênue da carne
o que dela excede, é fora
o que nela reside, é dentro

o que está fora
não pressinto
o que dentro está
pouco importa
é contínuo estar

fora de nós, outros
cães, pássaros e vidas
sem se safar de seus arbítrios
nem assim sendo, os notar

cá dentro um mar de outrora
de passagens sangüíneas
de células e cânceres
agindo fielmente ao bem-estar
do condolente proprietário
o dono do corpo à se julgar

pois, não constante se via
que algo se chamava lar
e que a vida da casa, era vida
quem a fazia habitar

fez-se janelas, fez-se portas de saída
e de entrada, acaso ousasse emperrar,
de dentro a vida via lá fora
mas a casa não sabia
o que estaria a vida à olhar?

a casa tinha a cara da vida,
a persona que lá fazia decorar,
e parecia aos de fora, viva

pelas janelas se permitia ver a rua
e ver da rua se havia alguém por lá
o lustro dos vidros, cintilavam,
ou ao menos deviam,
a vida talvez cansada está

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