Repugno

Fazer oscilar a discrepância dos carros de som e suas lamparinas de neon.
Correr os passos de loucos modernos e avessos campeões de terno.
Balbuciar a ofensa nos ouvidos de quem pensa que pensa que pensou.
Envenenar as ilhas dos quatro cantos do tempo,
Força, fossa fácil… a serpente do rebento
Enuncia a mudez dos novos dias, a vinda de novos ermos de outrora

O Arquiteto

epifânia epifânia
brota das profundezas de minha alma!
diz-me o que lhe conota ouvir de mim
quem eu sou?

mostra-me em sua luz corcunda dos tempos
turvada em mil sóis d’outras esferas
e d’outras esperas de revoluções simétricas

curvei minhas planícies e tornei-me ciclo
dum infinito fiz-me oblíquo e fiz-me nada
tornei-me escravo de meus sentidos e espadas
lutei contra meus zumbidos e fui zombado

epifânia infame
apresenta-me os segredos da namorada de deus
da morada dos seus segredos e de suas jogadas
revela-me o poente e o este dos seus horizontes
se o há, quero ultrapassá-los e ser infante outra vez

já vi tantas auroras e tantos crepúsculos
tantas histórias ludibriando-me a razão
todavia tuas certezas não me satisfariam
jamais!
ouvira minha voz mais de um zilhão de vezes
murmurar questões sobre tua unicidade

do meu primeiro espreguiçar vi o teu sol
e tua caça fui, teu caçador tornei-me
por mitos e mentiras trilhei as eras
da loucura efêmera à fogueira, eu fui
ausente nunca estive, outrora me ausentei

epifânia epifânia!
joga tuas faces ao nada e diz-me se o nada existe
meu desejo é saber em que vazio estou mergulhado
em que mesa armou essa maquete dimensional
em teu plano calhou me fazer incrédulo e passional

cita teu verbo como fez o criador ao criar o verso
provenha-me da fração do teu primeiro verso
e único verso, universo e sua inversidão

perspicácia a tua, ó controverso
sangre de mi sangre
me fizeste como tal o é, fizeste-me imortal
tua gargalhada é um estrondo que não ouço
por ser a fome ou por ser a ferida letal
pala tua distância teu ciclo é um esboço

teu cume e vale, pico e fosso
tua sintonia astral é de longa data
indatável
indelevel
estás dopado em teu corpo e radiante
luzindo veloz e justamente ante tua face
"deus" é um carro veloz que partiu e me esqueceu
minha trilha é seu som, suas macroondas cósmicas
o segredo do verbo e a pronúncia do inverso

epifânia!
tuas frases são fetos de explosões
dê-me um bocado de suas pistas
onde mora o arquiteto das dimensões?

À Nossa Vida

fiz de tudo para te provar
da boca ao corpo, a vida e mais
fiz um colar dos anéis de saturno
fiz valer meu julgo de que eras mais
que tudo,

e tantos jeitos de amar te dei
inocentava o meu olhar
quando te amei
pela primeira vez em que
pude te sonhar

levei para casa um desejo vívido
levei comigo teu jeito de caminhar
e teus passos ia seguindo,
dormindo
um segredo tão grande que nem
pude lembrar
mas acho que sonhava com
a nossa vida

minhas mãos se embaraçavam
e não saberia assim te acarinhar
meu triunfo à tua boca,
fora um canto já conhecido

e me deste tua boca,
teu sorriso e tua ninfa oculta
brotara com teus signos e faces
fez-me menino, sonhador,
um apaixonado completo
o homem que repousa sob teu calor

O Tempo Vai, o Tempo Vem

creio que o tempo também volte
na odisséia do fim, ao princípio
na dimensão inversa, negativa
resumindo uma profecia em vínculo

todavia, pressinto o que está
ao meu encontro, ao meu lugar
no espaço em movimento, no tempo
um deja vu arquitetado ao voltar

o movimento fez o tempo girar
o giro, não retórico, me fez mover
aparentes desastres de percurso
apenas, talvez, opostos vetores
imprimindo sua rota ao que vem

pois é, se não bastasse o presságio
queria saber o que me ocorre
quando não estou no meu caminho
na rota do meu eu-retrocesso?
pois bem, seria um colo sem aninho…

Micro e Macro

sou uma pulga ao meu planeta
assim como sou gigante às minhas pulgas

Ando Tentando Me Entender

qual é o zero absoluto
da distância do meu corpo?
onde começo a ser eu?
em que entrelinhas estou?
d’onde vibro em pensamento?

não sei mais se perguntar me vale
num segundo já não calha saber
se sou, se vim, se existo
quero saber d’onde me meço
onde é meu começo

gira em mim minúsculos universos
e eu aqui girando no corpo de alguém
muito maior que eu, talvez esteja
dentro de mim, o próprio eu-inverso

meu corpo abriga incontáveis viagens
seres intracorpóreos, extravagantes
bulindo com minhas estrelas e… neurônios
vadiam parasitas protônicos e eletrônicos
meu universo é indescritível

será, cá dentro de minhas galáxias,
que alguém me chama deus?
que me pede incompreenisevelmente
zinco, ferro, cálcio ou cobre
para lhes perpetuar um milagre solar?

sei não, penso ainda, de onde começo?
posso virar o tempo e não saber o eu-espaço
incansavelmente me mover no tempo
e aos longes, perder meu facho

 

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses” – Sócrates.

Meias Verdades, Grandes Mentiras

das verdades defendidas
nenhuma quiçá maior será
que a fé do homem de bem
que desconhece suas feridas

amplos louvores sob a ditatura
a ditadura da certeza
da cegueira oriunda da fé
na fé de ter certeza

não farás falsa propaganda
não duvidarás de seu credor
mas todos ao altar, quaisquer altar,
são agiotas em nome do senhor

bentido é o fruto de nosso lucro, jesus
benrico somos nós entre as vedetes
bentido é o pouco ao nosso muito, jesus
benrico somos nós entre as vedetes

armados de línguas afiadas
de bravos rugidos de leão
vão desdobrando, cruéis,
e armando de vácuo a razão

patrão nosso que estás no papel
bonificado é o vosso nome
venha à nós o teu dinheiro
seja feita a tua iniqüidade
assim nas telas como nos créus

o dízimo nosso de cada dia, nos dai hoje
perdoai as nossas diferenças
na mansão é que nós estamos
e você aí sem abrigo
não nos deixei sem teu último tostão
mas se quisermos mais 
nos dêem…

Esperar Sentado

o mal inexorável da minha época
sem dúvidas maiores, é a espera
por ela se criam grandes vazios
grandes quimeras e vazios
eternas noites em claro

aguardando algum dia ou fato
notícia, boato, algum postal

cai por terra nossos sonhos
à espera do pior, do imbatível
do intransponível receio de parar
esperando milagres, apocalipses
apoteoses miraculosas e grandes feitos
esperando algo à se encantar

espera-se o dia da previdência
o dia da falência d’algum órgão
o dia de morrer, o dia de liquidar
e ainda assim, esperando o paraíso
para, provavelmente,
esperar sentado

Fé Genérica

chorando de glória
colhendo histórias
eles vão seguindo

ouvindo metáforas
mitos e mentiras
eles vão surgindo

dentre milhões de ausentes
caminhando em correntes
decaptos de patrocínio
ao nome do pai
do filho
do espírito santo

ao pé da cruz, a lamúria
aos pés da amante, as juras

o ópio do tolo povo
o óbvio do sacro santo
o anestésico é cura fácil
da lástima à jura parva

em nome do, cálice
do, híbrido
do, empírico anjo
além…

Exossabedoria

a delicadeza e tua suave forma de contornar o mundo
sem pesadelos ou questões mais, contorna o julgo
e faz do fardo um aliado para voar

alado, todos os teus pesares se fazem de flores
de dente-de-leão e flutuam alucinadas ao breu
regando a inércia com atrito luminicente
aprendeste a voar com o vento
e a correr com as explosões de supernovas

jamais verá barreira maior que o que sempre está à frente
não haverá antes que a fará tropeçar ausente de lucidez
nada tornará a ter de ser recontornado, convicta estará
o passado já foi um passo dado, o futuro não passará

dá um passo no presente, faz-me brotar de tua fonte
semeia tua sabedoria onipresente em meu sonho são
saliva tuas promessas em minhas mãos e me deixa regar o mundo
faz de mim um fruto de tua elucidação, exossábio serei

serei teu filho bastardo quando bastar erguer a mão
e sincronizar tuas frações às mais enésimas partes
andar perene entre o próprio corpo, andar
transformação

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