Minha Vida

a incógnita do amor me desbercebia
afora ao mundo não sabia quiçá amar
quiçá ponderar o que era o amor
se o havia
não o tinha notado em meu cobertor

ultraje cretino meus dias ruíram
descobertos meus sentidos vigilavam
a poesia concreta eu escrevia incerta
minhas tortuosas linhas vagaram sem métrica
as corredeiras de meus dedos vasculhavam
austeras palavras à me explicar o que vinha
sem sucesso padeci esperando interno, sedento
baguncei meus pensamentos à espera de vida

pela triste primavera eu vagava não ileso
ainda despercebido do que me cabia
cavando buracos em meu espelho desfigurado
tentando encontrar a figura que não amanhecia
nem refletindo meu soberbo ar de esperto,
caía por terra minha face de quimera
de tanta espera já me reconhecia

franzia a testa em minha locuções modernas
minhas velhas frases já não me mereciam
mudei o verbo amar, amei um dia
presente em meu tempo pondero entre os ventos
hora sopro ao mar, hora à maresia

calho à vagar pelas doçúras vadias de sábias palavras
valho, ao menos tento o valer, minha corrida insandecida
já avistando o que é vontade, desejei o recomeço
hoje reconheço que não me reconhecia

sou do ventre da terra
o que a terra é à mim
poente abstrato e mudo
raiando n’outro lado e
ou sonhando à revelia

Passam aos meus pés

ao grande amigo, Henrique

ando crivando os céus em alvas estrelas
chovendo em baldes de alegria
colhendo seiva e nutriente, terra
por onde estivera um dia…

calho minhas mãos em jazigos d’erva
nas cascatas e nas castanhas raízes
vôo largo, longo, longe de diretrizes
caminhante diurno de noites de minerva

poentes vazios em cais sem porto
sem vozes e sem distorções, fazias
de verás foste amigo, ainda o é
acaso a distância já não distancia

daquela janela ainda se ouvem rabiscos
dos meus pés, ouço seus passos
mas já não o são só passos

de minhas asas sinto o teu rasante
em terras deslumbrantes por onde aprazem
teus longos e negros cabelos compridos, fugazes
valendo ao mundo, um ar desconcertante

amigo meu, já o é comigo um anjo guardado
em céus d’outrora navegante
agora guardo contigo um bom semblante
foste comigo um rouco grunido
de um mundo calado

A Figura do Tempo

o ocaso criou a noite e além de todos
doze lumes figuraram meu tempo
meu precioso tempo, reinei majestoso
meu lume em alvorada nacera lento

vi meus filhos lançarem a mentira ao vento
e colherem a cegueira que embaldiou-os

morreram como espinhos lançados, atraentes
cobrindo o céus de raios e fel

já nos templos fediam parvos insustentos
ousando crivar o passado em novas formas
talhando seus proveitos indeléveis

o mugido das cismas, das leis encharcadas
dos berrantes sinuosos de deus, de lá
finda um tempo, meu olhos baixam o véu
nossas noites serão mais enluaradas

afogadas de conteúdo, nada contido
o que continha já passou

Vida Louca, Migra

o Fausto virou um xarope
que para ganhar IBOPE
no reclames do plin-plin

botou bundas pra dedéu
e chamou Victor e Léo
para cantar ruim

Jesus amanheceu chorando
quando ouviu cantando
Padre Marcelo Rossi

e disso que para cá não volta
nem que sob escolta
pois só querem dindin

a arte não pinta mais o sete
depois de tanto patinete
seria ela muito louca

resolveu se ausentar da enquete
e foi comer croquete
para não dizer “o fim”

a democracia é uma roubada
um conto de fadas
para rirem de mim

me pedem só um votinho
para depois fazer um carinho
com o que sobrar de mim

esperança na sala de espera
a criança já nem manera
e vai fazer neném

a menina usa um corpete
enquanto masca chicletes
tomando um copo de gin

a vida espera providência
é tanta a decadência
que já tem dó de si

teme que a previdência
faça concorrência
com os seus porfins

Bê-a-bá

Bea, te ensinarei o bê-a-bá
te ensinarei a dançar e a
fazer outras estripulias
na sala de jantar ou na cozinha

Bea, te ninarei com mãos macias
como um pai grande e valente
tuas noites serão tranquilas
e minha voz tranquilamente
dar-te-á um boa noite, sorridente

filha minha, se mamãe tarda a chegar
eu preparo a mamadeira, faço uma brincadeira
pra você não chorar de tanta espera
pois aquela mulher que amamos logo chega
e seu sorriso será enorme, e o meu bem mais
virá com ela teu sorriso e minha saudade pelo chão

Bea, por um triz me deixaste tão solitário
à tua espera, fico observando outras janelas
para ver se te acho, debaixo dos meus braços
um vazio que me gela a espinha,
tu não chegaste
ainda é primavera
e tuas mãozinhas não ‘garram meus dedos
ainda será a filha minha

Terceiro olho

meus olhos, que me dizes?
me saem caros como são
custo à entender a visão
e suas fiéis luzes

fito atento algo que me rodeia
ar e mais ar, nada vejo senão
ar
pois, que há neste falso vazio?
essa interrogação no escuro

acaricio o espaço entre dois tatos
póros e fábricas de estorvos
vis espaços vagos, pregos, embaraços
que anda pelo ar que não percebo fácil
que navega nele, tão infiel visão?

já não haveria motivos de olhar
tatear ou quiçá atentar-se
pelo vislumbre que está à cara
nos custa caro navegar em crostas
e perder o melhor do caroço à brotar

desconfio que há algo latente em minhas mãos
algo quente, tão vibrante quanto o zunir das ruas
isto um dia vai me pedir pra não mais ver, não
vai querer que um dia eu crie outra visão