cada dia é um dia a se viver
como um último dia pra se ter
como se todo instante pudesse parar
eternizando poemas em forma de ação
sempre é o último minuto
o último consolo, último colo
o solo de guitarra elétrica
certificando a composição
é sempre o último copo
a última queda no chão
é sempre pré-estréia de um sonho bom
pois cada minuto são sessenta
minúsculas fadigas e êxitos
tropeços e redenções,
recordações e segredos
meus minutos passam com peso
talvez tão pesados que atraiam outros segundos mais
e já me valem as cadências do entardecer
talvez um dos últimos que poderei ver
por cegueira ou falta de corpo físico
e que já me vela a manhã que chega em meu anoitecer eterno
quando a própria cara afronta
confronta o saber que morto está
sem merecimento, honra ou razão
é um sentimento partido
adverso, corrompido,
pela força do ego
pelo ato falido
o falo
não falou mais que meu coração
me diga ao menos com que ansia eu partirei
me diz com que adaga perfurarei
um peito afrouxo, afante, errante e não mais
que um imbecil profano
um pária que nada pariu