Ela é Labirinto

acaso dantes estivera eu achado
encontrado, em teus abraços e beijos febris
agora me empaco perdido, feito cego em tiroteio
me sinto em Teerã jogando com a morte um jogo de azar

por alguns dias contemplava tua boca que falava doce
alguma coisa que impessoalmente poderia ser falado
mas eu queria devorar sua memória e suas alcôvas
derrubar teus labirintos e libertar à vida essa quimera

acaso e muito ao contrário, ergui em mim um esconderijo
rijo e prepotente como se fosse impreciso ser
já me acariciava sozinho, delirava sem por quê
tu já não estava aqui, somente tuas confusões estavam

por alguns segundos eu temia a solidão e novamente calava
por outros tantos eu me afugentava dos quinhões do novo, de novo
acatava minhas recomendações de ceder e ser humilde sempre
mas as vezes me sinto um anjo, sem sexo, sem saco

eu tinha mais o que fazer, e não fiz
estava esperando sentado alguma palavra
qualquer besteirinha sequer
que soasse da boca daquela mulher
algo que me deixasse a par de como estávamos
parados, intactos, falidos
eu estava apaixonado

Sem Lugar

eu sou um mímico no teu coração
no teu peito, tateio um signo
e nada mais simbólico que a razão
que é o signo dos loucos e sábios
daqueles que imaginam um mundo sem explicação
e depois recriam seus universos
justificam suas paixões ensurdecedoras

fico a tatear alguma mobília que me dê paradeiro
se estou num campo inimigo ou no topo da coordilheira
mas não, parece uma imensidão de espaço e sem ar
parece tão alto que um altar não comporte
ou que não me confortará o desconcerto de estar
sem saber se estou num país de maravilhas
ou na casa da vilã que nem parece má

Nua Mudez

essa criatura que imaculada ficou
nas alturas de seu sorriso branco
de quando o porvindo momento reparou e
ficou sorrindo quieta, calada, muda, em silêncio

e eu que não sabia de nada do teu lábio
da tua vida, história, do teu diário
fiquei aqui perdido, caído no labor de curiosidade
tramando algo que lhe calasse a timidez

mas nada, na doçura dos teus seios que eu não provei
mora uma esfige, uma interrogação de loucura
uma imaculada criatura que mais que uma mulher
é tamanho contraste entre o céu e a terra, sou qualquer
e não consigo dizer: não te conheço

algo que não sei explicar, talvez nem peça explicação
a cor de teus quadris deve ser de flama púrpura
profundamente um outro mundo perdido em teus sabores
mas intrigante são tuas ancas e tua nuca

é um desejo que não se explica
não se aplica, e teu silêncio se espalha
e minah boca também carece de palavra
parece então que estamos num céu-de-não-sei-onde
e me agrada saber onde estou

Uma Guerra de Corpo e Alma

ai, a flama adaga de metal, de arcanjos
que possessa me lavra o couro todo
e transborda-me o sangue doentil do corpo

ai, e inflama mais angústias que em tempo tardio
agora que já não quero mais adiar meus dias, feneço
contando as horas para uma hora mover e ascender ao brio

a sangria amola o que a produz e assim mantém-na sadia
a alma tem seus gumes em euforia quando rasga o corpo pelos ares
e comemora a vitória sem saber que o tempo também foi perdido, e agora?
ai, e agora já não me resta mais que esperar algum dia… e voltar

Eletronic Sound

a cor de tudo
parece a cor de tudo
ao acordar do sono profundo
e ver chuva chegar do céu
e molhar o corpo que não está
a cor de súbito sumirá
a cor do todo semitom
dilúvio de cores de algum lugar
e ver o chão chegando amplo
do céu vir e vindo de lá
nunca chegar

a cor do malabarismo do som
o coda euforia astral
acorda a poética em vitral
o cromo das cores vibrando. Om

(inspirada ao som de George Harrison)

O Self, O Fio e Deus

o ontem sempre acaba
pra hoje começar
a planta sempre morre
pra outra ali brotar
o bicho sempre come
pra depois outro dele se alimentar
e justiça só consome
o que o homem tenta burlar

a culpa só existe
pois depois dela há o perdão
e a guerra só resiste
pela tal da muy quista razão
a vaidade só tem espaço
quando o espelho não tem oposição
e a verdade só é justa
quando é lida pelo irmão

o passado só resiste
pra contar como é que foi
a charrete só chega cedo
depois de acarinhar o boi
o trabalho só trascende
quando se faz o que se tem de fazer
e o esforço não só rende
quando a vida nos pretende
muito mais que só a réplica
do que todos cansam de saber

a vida só não acaba
quando o lucro não é daqui
quando pensa, quando batalha
dentro e não fora de ti
pois um sábio quando anda
sabe as folhas que caiu
da árvore do pecado
e dos passarinhos que ele ouviu

a minha herança ninguém compra
pois não podem-na tocar
é intocável, exuberância
que os olhos não sabem fitar
a minha riqueza é doutra vida
é pra próxima e pra mais querida
alma penada que vive no fio,
qu’é a escada
em que o self vai me buscar

Silêncio, Silêncio É

silêncio, silêncio é
tudo que não posso ouvir
o silêncio das torturas
das matanças, chacinas
a mudez das guerras frias
e da frigidez das notícias

o silêncio das arquibancadas
em euforia por menos um abraço
o punho cerrado emudece o ar
e a paisagem cega o espaço

o silênciar contradito
das ordens de paz
fazem o pior dos gritos
e manipulam malditos
soldados sem som, sem cais
senão a própria paz findar

se silêncio, silêncio é
o que não posso ouvir
em pleno silêncio estou
mudo e surdo, perplexo
buscando uma carta final
e encontrar um nexo qualquer
que me explique a barbárie
que emudece minha vida
eu já não sei o que falar
nem sei ao menos se escuto ainda
a paz não está perdida

Há Felicidade em Mim

mais feliz que a vida que tive
outrora perdido estive e agora
brando em aconchego suave, sútil
mas vivendo intenso ar primaveril
em braços longos e delicados, precisos
mais que necessito, é somente ser teu

acaso trouxeste à mim, ou vieste assim
perfeita como deus assim a fez
mas meu deus, que perfeita criatura
e que bom ser tu és, que me permite até
beijar o lábio e receber os carinhos de mulher
que só ela sabe me fazer

ah, luiza, se assim te cantaram em bossa
e se em mim remoço a bossa já envelhecida
mais doida que varrida vida, assim renova
e a cantiga me vale o canto em peito aberto
e que ao certo serás mais que um tempo correto
será eterno enquanto dure, como assim dizia o velho
vinicius, poeta dos amores e eu pobre mortal
que só te amo assim como amam os poetas
a musa que vive em tua pele mais que musa é

é a mais justa parte que faltava em mim

Rima Gorda e Rápida

11° mandamento:
não te alimentarás indevidamente
com as banhas da natureza,
pois banhas tuas assim serão
ou um dia não mais serás aqui,
pois aqui jaz um leitão

Gerundiando a Vida

continuamos vivendo,
amando e correndo
andando quando preciso for
estamos comendo
e vomitando
roendo os ossos do Sr. Doutor

coincidimos desastres
alegamos contrastes
como um bem não divino
continuamos estando
sendo e interagindo
estamos chovendo
e secando
alimentando a carne de Narciso

ataremos as cordas
puxando e torcendo
estaremos no entanto
diante do espanto
e fortes e grandes
pra não sair correndo
continuamos pensando
fazendo e achando
tesouros encravados no tempo
cavando soberbos sem tanto
fazendo poeira ao vento

continuamos morrendo
continuaremos
crescendo e crescendo
até chegado um dia santo
ou nem tanto
nunca chegaremos
acho que nem saberemos

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