Me Esqueci

à Carol Carolinda , algo que ia te dizer…

tinha uma frase perfeita pra ti
mas me esqueci de dizer
era algo sobre tua tristeza
talvez nem era sobre você

mas o que importa é que ia dizer-te
algo que era importante, entende?
e como é estranho não saber mais
confundo as palavras e a memória vai
e não volta com o que tinha de te falar

As Mudanças (Sinais)

a bruma de fogo
paira em cantos de sagaz
força
o espanto das multidões
ao não entenderem o que se faz

cai, cai que o pranto rola
a esmola dos santos já não vale mais
mais vale o momento do infante
afronta a dor, tormenta
dormente acalanto em que a vida jaz

recolhe poente o último sol
a solidão solar já é mais verdade
dois lumes que vagam sobre o horizonte
atenta os olhos que as multidões visam
e desmontam os profundos dotes de satanás

cabe ao cento e quarenta e quatro antros
dias de torpor e festa que a vida nos faz
nos trazendo a reviravolta
o santo modenro revolta e a confusão se dá

o paradigma do velho canto da cruz
do sino que não se entende ao badalar
o verbo que cria, criatura se faz
e a harpia nas alturas procura seu prato
visando o rato que no solo cairá

porto velho acorrentado da malevolência
a cegueira dos séculos jazem com dos demais
o refino da prosa dos novos filhos
já não mais entendido pelos seus pais

Pornô-Lírico

se um estiver de uma maneira
que me acuse: “estás fora de si”
espero estar dentro de ti
invadindo o destino de tuas coxas

da maneira que estiver, estar em ti
para saber que tua voz é rouca
e que treme as pernas pra me beijar
quando lanço-te um olhar por não resistir

não aguentando meu fôlego, desritimar
descompassar com calma meus quadris
e debruçar sobre teu corpo o meu peito
e meu suor pingar em teus seio de anis

e cheirar teu sexo e tua loucura em paz
deixar que exale teu âmago
tua euforia de mulher em carne e eletricidade
o espasmo d’alegria, tu’alma à gozar em mim

O Amor Me Redime

fernão capelo já voava em anunciação
cabelos sessentistas voavam em canção
canções de rádio libertam na opressão
minhas memórias passadas trouxeram
a voz liberta da alma que sempre carreguei

canhões de guerra sempre confundiram a paz
outras já comprazem novas tecnologias
mas no mundo meu celular já vibra quando me chama
alguém estaria apto pra falar?

outros tantos me virão quando o tempo chegar
noutros dias e por quês perguntar-se-ão
onde deveremos chegar?
o peito acalenta, com a paixão sustenta
a anunciação liberta dos que a anunciará

nesse mundo onde tudo é carro e patrão
um poeta já me dizia com alma em punho
da ponta pra fora, do deleite à letra
“eles passarão, eu passarinho”

(salve mario quintana, sua citação ali)

Verdade, Não por Si Só, Verdade

a verdade é veneno letal
a droga elucidada
ou alucinógina

é obra imprópria
para quem não sabe ler
para quem não sabe pensar

ela fere, mata, danifica
para quem do ego se nutre
para quem no ego se complica

mas ela chama o espírito
para quem sabe ouvir
ouvir o que há de se saber

verdades são sempre meias
quem a ouve é sua gêmea alma
e nega ou ama-a
ou repele ou se entrega

o fato em crueza e sóbria nudez
traz consigo afronta ao passado
ao que não se deve proteger
talvez ele seja sua fraqueza-mãe

verdades para serem ouvidas
se bem ouvidas verdades serão
ela te cura do mal do reto
te livra da culpa da omissão
de veras
liberta-te da retidão

ela te mata ou te purifica
ou você sente o céu
ou putrifica no chão

Filosofia

vida me cativa
me leva em brisa
me devolve em chuva
que molha minha rua
e me leva pro mar

vida que ensina
que vida, hein
me revolta em tempestade
me provoca um alarde tal que…
desmorono e me remonto
me transformo em espiritual

vida que de brisa me carregue
aos céus, minhas respostas leve
e me dê dúvidas de temporal
que me desproteja profundo
que me deixe insuperficial

vida que me desatine
me afronte com teus trovões
para molhar minha terra
e suas sementes cresçam
numa primavera, a flor
no verão, o fruto
que faça-me celeiro de ti

vida me ativa
quando permite segura de si
que brote em meu corpo tuas vidas
teus por quês serão os meus
e minhas respostas aos céus
e tuas dúvidas à terra
e a vida no espaço
buscando um laço qualquer
com um deus peculiar

O Último Poema À Mim

de alguma forma minh’alma não sai
talvez nem deva agora sair
em seu passeio em noite de jazz
como diria o Tom a sorrir

d’alguma casa do céu, virá me buscar
banhada doiro, esplanado luar
na abóboda da terra, cúpula de deus
não seriam minhas mãos as luvas
que estapearam os teus hebreus?

se provesse cá d’alguma dor honrosa
mas não há, martírio nem lustrosa dor
somente delírio e velocidade
a mente vagueia com seu cigarro
entre o imoral e o perdão

se provesse meu corpo o respeito
o despeito, aliás, que só os loucos tem
que morrem aos poucos tentando viver
pra além de seu troco, destino
acham em desatino que isso irá valer

um sorriso é pouco
e eu é que enlouqueci
rá rá rá

Bicho-Papão

eu sou da silva
da selva
do mato, do brejo
do rio, da ribeira
da casa, videira
a alma do teto

eu sou cão
eu sou rato
gato e sou lobo
vou logo
vou todo
que aqui
perco a razão

sou homem
sou louco
sou bicho papão

Bugio

tem alguém
que não digo quem
que me chama
macaco gordo

eu quebro galho
todo o tempo
(o tempo todo)

mas sou bugio
armo beiço, berro
e jogo merda
miro o ventilador

Tudo de Nada

é preciso ter espaço
para nada ter
para nada ter é preciso
mais que só espaço
é justo entender
que o nada é mais amplo
largo e profundo, que tudo

encha, esvazie
enchemos de escolhas
esvaziamos para onde tudo está
o que é preciso entender

é preciso ter
para nada estar
ou haver

a matéria, persona da essência
na aparência que vedes em algures
é só caos do que segue a lei
a lei do equilíbrio fundamental

é preciso estar sem conteúdo
fundir-se com o que contém
estar muito menos além
estar na base de tudo
do pelo do burro
ao filho de Belém

é preciso ter espaço
para nada ter
ou ter tudo
é preciso ausentar o nexo

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