A História Do Homem Comum

arranjei um casamento
que pra lá do firmamento
irá de se afirmar

com testemunha e documento
com casa, cachorro e um rebento
que já está para rebentar

contudo há sempre um pensamento
que no instante de pensar
dá um dó, um sofrimento
que é maior que o lamento
de quem está pra se acabar

eu arranjei uma namorada
linda, triste e descasada
que era pra eu namorar

com quase tudo, até morada
trabalhava de empregada
que é pra modo de sustentar

agora vejo naquele altar
uma barriga, prenha em luar
cheia da minha cria amada

eis que tenho uma aliança
uma mulher, casa e criança
e uma saudade de farrear

Aperto De Mão

ele me prometeu
que um dia volta pra casa
e na espera, minh’alma em brasa
se despede em um último adeus

eu preparo a mesa do almoço
pro jantar, tarda à chegar
vive correndo dum lado pr’outro
parece até um bom moço
mas coitado, pobre rapaz
vive correndo com medo de todos
e nem em minha cama tem paz

ele me prometeu
uma vida inesquecível
daquelas de chorar no final
mas se despede de todo o mal
com um triste e corrosivo
aperto de mão

(sem título)

eu temo, contido como amores perplexos
fecho os olhos e corro abrir um livro
para ler no silêncio da escuridão das tardes
fecho a janela antes que a ventania me vele
que meu sonho é delírio
e meu livro, em aberto

Gen. Avatar

ferve o mundo num furor de pompas
que serve as pombas para defecar
velhas estátuas de ídolos falsos
de que servem os saltos,
se não para se desabar?

cede o homem de pompas
jogando suas bombas para além mar
e martiriza outros campos
de sangue e de santos
ele carece da sábia mania de amar

cose seu corpo com a flexa de quíron
com o corte de marte que vai transitar
pela casa da paixão dos homens
da sede bradada no peito de quem chora
no peito de quem se permite sangrar

avalia muda e parada sombra
com o clamor dos que observam
a vida se esvai como lhe serve
matando aos poucos
em doses de orgulho o casto segue
na sua guerra santa, o colírio
nos olhos cegos de um avatar

Outra Vez

passa
a vida passa e eu querendo esperar
aquela moça que não para de chegar
e na chegada esqueceu-se de se encontrar

ai, se a solidão tomasse conta em nosso cais
e atracasse somente os dias mais banais
pra permitir que meus dias se acabassem

encanto
eu, vulto tonto é o que já não passo
entre migalhas eu encontro os meus pedaços
e vejo uma vida que já não me satisfaz

caindo, como se os amantes pudessem um dia amar
eu vou sonhando cada vez menos e sempre, mas…
algum dia eu sussurro

-outra vez

Atemporal

calmo, como calmo é o espaço
mutante como o mar o é
de ardor inconstante
eu me faço
meu regaço de mal-me-quer

pura como puras são as manhãs
clara como é a lua cheia
que devaneia, devaneia
e não sabe o que quer
eu me faço
minha questão não é qualquer

largo, como larga é a imensidão
transeunte como os cometas
vagantes, errantes profetas
anunciando em sonhos
o que não se saberá sequer
eu me faço
como se fazem as manhãs

tenebroso, qual tenebrosa é a morte
enigma, como saber donde provém
mais deserto e sem mais ao menos
nem ao feno dou fogo
que a palha queima e sem estouros
eu não seria o criador de papéis
preciso do assombro das respostas
e das perguntas que me fizer

Quando Ele Volta

quando roça a barba
e me deixas solta
quando me prende nos braços
e tua voz rouca
me confessa e me inebria
me fala baixinho
pelos cabelos me pega
e despe da agonia

pela manhã sai por aí
diz que não volta tarde
e eu sei que voltarás
e por dentro aqui arde
pois sei que esse amor covarde
não me deixa desistir

na rua, outras mulheres
mas me jura o amor
finjo que não sei
finjo estar feliz
aguardo a noite chegar
quando se deita do meu lado
me acaricia e nada me diz

Diga Lá, Verdade

se ela quer mesmo saber
diga que eu estou cansado
e que não vou pagar pra ver
todo o nosso estrago

que eu não quero o desprezo
quando reencontrar um antigo namorado
diga também que estou desesperado
mas que ninguém vai me ver sofrer

eu engulo as lágrimas
à seco, aos goles de trago
aos cigarros
eu mato a dor e deslavo
o meu estar contrariado

se ela quer mesmo saber
diga que eu vou muito bem
e que não quero nem compreender
ela me deixou injuriado

Premonição

ele já está na idade de morrer
mas salvo o amor tido entre vocês
nada mais padecerá

bárbaro futuro que terás
ainda que salvo o meu amor
reconheço o passo a dar
parece até algo redentor

batidas que toam na memória
ainda leves batidas são
receberá um só para contigo estar
perdidos na mesma ilusão

basta o dia chegar, basta
ainda que a certeza está
retida como âncora de plumas
passado e furuto lá estarão

Poço De Satã

cai a bolsa da dama
ai que drama
faliu em desilusão
era um sonho tal que era
hoje faz intriga de vilã

cai de cara na lama
aí me chama
e não aceita não
diz que me bate, me azucrina
senão me manda pra teerã

e se eu ficar pra lá de bagdá
quem me socorre, o tio sam?

cai e faz drama
aí se engana
pariu rebelião
tudo era feito de quimera
e algo novo nascerá amanhã

cai a bolsa da dama
-ai que fama
advertiu o joão
era um sonho, uma janela
de frente ao poço de satã

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