Vaca Mundana

o mundo é uma vaca que se impesta de rumores
que vive de fáceis humores de merda
que treme com seus suspiros e temores
ai, essa vaga alegria de estar prenha
a vaca não ordenha o rebanho transeunte
mas o rebanho mama nas tetas desta puta
e que falo amargo lhe fez parir
a praga que lhe toma as costas? e teu rabo,
o que abana tanto que ainda não espantou a lua?

o tempo não passa,
atolada a vaca chora na lama
e clama
que lhe tirem da fossa

Sem Demoras

lança as asas ao porto do firmamento e pede
como quem não mede a palavra do poema
da triste donzela em castelo de aço
eu só peço que tires este embaraço de gente
que o tire de perto, acaso posso,
então eu mesmo faço

regra meus passos e me faz impedir teu castelo
que um vilão sombrio e terreno, maléfico, o diabo
o castelo de quimeras do teu calvo asco
ele o fez como a réplica justa dum inferno parvo

de derradeira causa me viestes e estarei contente
pois sou dela a reação mais singela
mesmo se tu não me queira, não me impeça,
não deixarei tua paixão sofrer em mãos de besta
na tristeza dessa confessa aberração decrépita

se tu serena, flor, em lua no céu me vieres
cantarei-te meu sonho de primavera
num desenho de tuas formas eternas
em minha memória ficarás como aquela
que me trouxeste um sorriso que enlaça a face

conciso estarei em altar de grinaldas épicas
tua morada será de mil cores reais
e no céu estará todas as estrelas
e um bom dia em pardo bilhete de amor

Samba Para Nós

teu nome é flor e flor de tantas
caras e bocas e tantas saudades
eu guardo aqui e nesse instante
no instante de te dizer a verdade

meu nome é amor em acalanto
pernas bambas de faltar o ar
eu guardei pra ti algo que eternizo
na vida de agora até a morte chegar

alva flor que sobe lenta com torpor
atenta ao meu rumor de santo
que lá no altar te vê de branco
já prevendo o que virá depois

de branco, chapéu, sapato bem lustrado
bem lanscinante noite eu me deparo
na roda do samba o anteparo
e retumbam o sapateado dançante

bem bamba nossas pernas se enroscam
meu sapato lustroso pra te ver dançar
e como dança essa flor mais amorosa
que me deixa prosa de tanto calor

Um Caminho

e se a mão que me toca for minha mão de vontade
a violência que me soam os nós a desatar no peito
os botões me enforcam quando nem sei direito
se minha ânsia é de ir ou de não mais esperar

e se o fado da angústia me espreitar nas noites vazias
e se minha alegria for justamente a de nunca encontrá-la
espreito o tempo que me faz assombro e me confesso
que a estrada não é longa pra quem sabe amar

e se todo o pranto for de alento a minha essência
e se eu não souber mais amar

e se cada instante o infinito se fizer presente
na distância da chegada, o melhor será estar
e se o infarto que conheço da partida for tanto
que minha alma suma e nã oqueira voltar

e se tua boca for bruma e com o verão se queixar
que outro lugar onde a seca pede tua chuva
e tua vida plena quiser pra lá voltar
e se eu não for mais que um problema…

e se… desencantar teu olhar de fronte ao meu
e no teu espanto o sol queimasse o ar
e meu coração secar diante do teu declíneo
e se por ventura eu não souber mais voltar

como se da tua casa, cama, cobertor fosse
não mais que um doce que está prestes a amargar
e se a ferida que minha palma apressa sangrar
e se do sangue eu lavar a terra e me afogar

admito que algo está que nunca esteve por cá
minha memória não quer mais lembrar e eu sei
que minha história não é para se lembrar

Um Ébrio Triste

um poeta passa triste
o alento não existe
tal afronta que dói
o peito se destrói
tal como inocência
a pureza me resiste

se essa fugaz e atrevida
fora a ilusão da minha vida
tal que a razão de amar me desligue
queira que em meu jazigo abrigue
no momento de perder razão
o desmonte de peito em brasa
e que me dêem a paz na despedida

A Chuva Vem

o céu com cor de pavor
branco pálido acizentado
parece um morto zangado
um choro agonizado de dor

a chuva cairá como sabor pesado
caindo as folhas e as ásrvores
quintais serão varridos
e os ventos serão vendavais

como ser o alvo dos granizos
meu corpo perfurado pela nuvem
sangra e lavra a terra descabida
a calma e a foice, a chuva úmida

Em Qualquer Lugar do Futuro

nas cartas, no céu
no véu do mar, na luz
no corpo celeste, olho-nu
no pranto das cachoeiras
na fila do mercado

quando o ônibus pára
no sinal vermelho (amor)
é um sinal do tempo
eu te rôubo um beijo
e finjo não saber quem sou

nos topos da terra, no ar
na calma da praia, no cais
no portão do prédio onde estás
na tristeza que longe jás
no breu que espantei de ti

quando corro pra guardar lugar
na fila do mercado, vai pegar
a nossa manteiga e nosso pão
hoje sou eu quem lava a louça
hoje serei eu a secar as mãos

no computador, na sofá, na pia
na mesa, no escuro, no ventilador
eu quero, eu te juro, eu te penso ali
em cada canto, amor, de uma casa feliz

estará nos escritos do futuro
quando um neném chorar baixinho
agora eu já não durmo
é meu dia de fazer-lo aninho

Céu e Sol

eu vou poder sentir tua boca tocar a minha
quando o sol despertar e a lua clarear a linha
o horizonte se arrepia quando estamos ali
quando somos dois amantes em pleno mundo
a vida se contagia
nas ruas somos o arranha-céu e o firmamento
na queda livre, adrenalina e a ventania
na nossa casa como querem as estrelas
adentrando nossas janela
a casa tomba em nostalgia que brota no peito
quando aos labores íamos

mas sem saber do retorno certo
a cama tremia
e o vento abanava as cortinas da varanda
tu chega em casa como o sol
eu entro a noite no teu céu

A Flor

socorre tuas pétalas, flor
socorre tua cor
antes da primavera chegar
nada mais te inquieta

prova teu sorriso, minha flor
que teu colorido é livre de dor
socorre tuas folhas pra ver o sol
quando raiar o verão um dia
a força que o sol liberta
te libertará

que quando a primavera aperta
as flores saem das suas noites
e os vagalumes se aquietam
e nossos ventos não te despétalam

prepara tua cor denovo
a primavera não sonha só
e o sol não brilha em vão
se meu céu não brilha é a noite
e a noite a flor sonha comigo

Eu Te Busquei

fiz uma canção pra você saber
o quanto é triste estar assim longe de você
fiz o redentor chorar por meu padecer
até no pão-de-açúcar nevou glacê

ai minha saudade já escalou o everest
correu a muralha, descobriu tesouros
vi que não são maravilhas,
mas sim são desastres

e os meus olhos cheios d’água
numa eterna desilusão
fizeram noé salvar o mundo
quando disse que sofria
acreditou que era anunciação

então alguém separou os mares
vi então em terra uma concha de pérola
cantei uma canção que demorei décadas
e tu saltou dos meus sonhos seculares

quando vi já era tarde…
mas nem pensei em voltar
fui para a colônia em marte
a lua começou a desmoronar
na terra não estavas
nem comigo pode ficar
em vênus, a tua morada
com outras deusas foi chorar

mas eu bravo guerreiro que fui guerrear
abandonei as armas do corpo e me pus a amar
no choro de tua beldade, a maldade pôs-se a cessar
e na minha nave de jade e ouro
com meu trajado doiro,
- À Terra voltar!

reconstruí nossa casa, nosso céu, nosso mar
os bichos me encantavam, as plantas brotaram
no meu amor fez-se um jarim proibido
meu sonho foi encantado

e com meu barco de estrelas
lancei-me ao ar, como voam os falcões
te busquei na tua morada celestial
te fiz um mundo e comigo morou
meus lábios tremiam, na terra era festa
pois pra mim tu voltou!

« Entradas antigas