sai pela rua
amargurado, destraído
errante menino-homem
com um sorriso relapso
me enquecendo da solidão
eu sorria sem pensar
e pensando, chorava
caminhando
no escuro, no claro
as estrelas apagadas
dentro de mim nem a Lua
nada além de uma vago
“não mais”
nem mais nada a viver
precisando
de um abrigo, abraço
de um espinho, navalha
de nada, de tudo
algo amargo pacas
pra fazer da dor
um furo
pra dizer que é nada
que é só desencontro
mas nada me conjuga
senão o próprio grito
na lonjura dos trilhos
um abandono de juras
eu queria estar cabível
em teu novo rumo
mas não
já não sou preciso
nem afável de amor
digno de tuas mãos
ou de tua cama, não
só precisava mesmo
de uma navalha
abrigo ou abraço
nada ou tudo
alguma amarra
algo que faça furos…
Ô minha Nêga
me convidou para tua festa
me usou, abusou,
agora diz que não presta
mas o meu amor
é uma viúva negra
essa nega ama
e depois mata de solidão
Ô minha Flor
não me faça isso, não
me chamou, calou,
agora não me diz onde errei
mas nem sei
tu é uma viúva negra
uma nega que ama
mas comigo, minha Nêga
a cuíca mudou de tom
Aí é que se engana
quem diz que diz que falou
na certa errou de palavra
eu tou muito de bem comigo
muito bem não deve estata
é quem te falou
Ai ai ai, minha Nêga
vamos deixar de conversa
me dê um pouco de juizo
eu quero entender e não consigo
onde cargas d’água
fui moleque ou um não-bom-marido
partiu sem sair do lugar e foi
debulhar meu coração em um triste sonho
apanhadora de sonhos, recolhe um pedaço
que caiu de mim em tua corrida
saiu à toda como quem rouba o doce dado
e não disse por favor,
nem menos obrigado,
sumiu com o doce nas mãos, mas não partiu
caiu sem doer os cotovelos, mal dói
o que deveria doer era o travesseiro
não estranhe se ele chorar
ou não
deixar-te dormir, gritando um nome meu
parti, saindo do lugar e do tempo
para desprender um canção zangada
triste canção de uma dor corrigida
pelo mesmo tempo tanto que me fez sofrer