Balada Hindu

sou destruição
canto de guerra
pólvora no chão

meu caminho é transformação
todos os cantos do mundo
em farrapos inúteis que são

me resulta e resta é o amor
é a natureza que me compõe
é o que reza a real beleza
o fruto, o grão, a flor

Esse Jogo…

o que me limita ao homem
é a parede da humanidade
que me impede e some
me pede um instante
80 anos!
que bela insanidade

limita-me a pulsos elétricos
me dá a dignidade e tira o resto
ou sou carne ou sou matéria
ou sou etéreo e estéreo
estéril xamã, mudo e cego
sem telepatia,
sou vizinho do meu passado
sou vazio,
qualquer dia
me sinto profundo, um rato

grande como o grão de fósforo
que risca e o fogo se cria
flama, arde minha essência
sou um bastão de latência
-a bola terrestre eu rebatia
mas deus não deu a Lua
não podia.

me querem vendido
vendado, mentindo
me querem sensível
fraco, passível
de dano e de tato
me querem nocível
com voto e com chato
venéreo e limpo
rico e nobre, intacto
uma dama ou no xadrez
me querem num lapso
me condenam por querer demais
eu digo que não sei
não queriam um justo
queriam um rei
-eu não nasci exato.

Eu Trago A Terra

cabe à mim chover no molhado
onde todos estiverem passando
onde estão todos dormindo

se no chão estão me pisando
se no outono me podam
no céu, os cometas me rasgam
no mar eu respiro e choro

quando me chamam, eu ladro
se me enxotam, não mordo
se me respeitam, eu ardo
quando me queixam, eu paro

a nuvem também é mar
no céu também é praia
a terra é o fumo
e o fumo meu cigarro
eu trago a terra
eu trago a terra

Vai Chegar

quando do alto vier as nações de luz
a treva estará feita e imposta
pela própria sede de infinito descontrole
o homem cai do trono, dá lugar ao sono
que as estrelas irão guiar

não haverá mais histórias de fome
nem de maus homens e seus exércitos
nem tampouco os desestores do incesto
do abuso da carne e da mentira eterna
até que a morte os aguarde
não vai para lá quem não por dentro arde

Bom Dia

a manhã é uma vadia
profana minha felicidade
permeia-me de alegria
é uma tonta arredia

a manhã é poesia
passa na mocidade
caduca meus dias
e se faz de malvada

a manhã nunca tarda
espera por arder
(ao meio-dia)
esquentar o prato

a manhã não encara a noite
com o peso do açoite
(a noite prevê o dia)
ele castiga com serração

a manhã é mesmo uma inundação
me traz o primeiro ar
(sem palmada ou choro)
meu pedaço de pão

a manhã é uma vadia
que diariamente profana
o Bom Dia

É A Vida

como se não bastasse a dor
o mundo apronta outras tantas
mas me faz sentir que prantos
não o fazem tanto quanto podem
as brisas do mar, que me trouxeram
novos ares e novos perceberes
tanto recebes, que me fizeram doar
e do ar me trouxeram outros tantos

investigando a misericórdia do santos
senti o prumo amargo do equlibrio
o perfume da flor de lírio,
e mais
vaguei errante por entre tantos livros
que decorei com a inconsciência de ser
vagando entre bibliotecas vivas
entre todas as formas vivas de saber

pus-me a ancorar os olhos no céu
vasculhar as cintilantes estrelas
procurar nas formas cosmométricas
diversas expressões de ser, e ser
mais que uma vez, todas as vezes
ao mesmo tempo que sonho, eu posso
mais que uma vez, estar contido e conter

sou do universo o que ele o é à mim
um todo carnaval de cores e corais
sinfonias de plantéis divinos
provando o vinho do conhecer
e embriagando a alma com todos os toténs

Ama Tua Casa

ara um dia a terra e planta teu sorriso
o mais indeciso dos seres é capaz de saber
que na terra a força que a mãe nos dera
é a cabeça do universo que está a tecer
um novo dia de um novo humano de nova era

pare em um dia com a fome, pare com a desgraça
para um dia ver o sol brilhando como os olhos
que nos sobresaem  nos outdoores das rodovias
pega e segue a trilha do teu rumo, dos teus guias
então vai saber que um dia há de se saber risonho

planta tuas raízes nos trilhos da tua morada
do teu corpo, da tua Terra, do teu cosmo Todo
e vê crescer o girassol no quintal desta Via
planta e colhe o Amor que todos cantam
que todos pintam, que todos querem
planta a flor desse Novo Dia

Tempo, O Verbo Tempo

será que sou começo? ou fim?
será que sou algo enfim?
pois mudo como mudam as pedras

se me servem o chá da manhã
sou astral e uma folha cai
sou contraparente de meu pai
sou um cão, uma ave, um divã

quando me querem, eu já fui
se estava aqui, então, agora
o passado não possuí, o futuro
não me alcançará, já me possui

me servem em prato raso, e fundo
como se estivessemos moribundos
vivos e submersos, como estar em tudo
contido e conteúdo
somos vagabundos estelares
somos corpos vivos, covas e flores

quando me guiam as estrelas, no Uno
percebi que não sou tão pequeno
que sou de tudo, que sou de nada
que sou como o é o escuro
que sou uma jura mal feita
que aprendeu como o tempo
a sonhar com o vento
e o furacão criativo decorar
com meus olhos sangrios
com minhas dentaduras de séculos
com meu ossos de pedras, meu lar

quando me revejo nos templos
da antiga Terra, minha e de Lá
quando Eles me serviam chás
das ervas astrais que eu colhia
eu lembro do futuro que estarei
por um Eu que me escolherá

Rodando…

enquanto o mundo ia girando
minha cabeça ia rolando
desenfreada pelas armadilhas
que o destino me impôs
sei que o que me puseste
são amores errantes, infarto
mas o mais belo de quando parto
são os jardins que cultivei

eu indo girar o mundo com penar
minha cabeça estava zonza de estar
paralela à teu seio, teu ventre
que o destino me pregou a peça
do teu amor que me trouxe a pressa
mas a maior presa é aquela que teme
a sua caça e que morre de fome. E sede

mas agora a toda razão de estar
é estar aqui, longe, perto, exato
com o corpo cá, a mente lá, e por aí
indo as pernas sem saber onde está
exatamente onde sempre estive
te esperando, na velhice, na mocidade
na certa idade que a vida pode insistir

Lamentos

sai pela rua
amargurado, destraído
errante menino-homem
com um sorriso relapso
me enquecendo da solidão
eu sorria sem pensar
e pensando, chorava

caminhando
no escuro, no claro
as estrelas apagadas
dentro de mim nem a Lua
nada além de uma vago
“não mais”
nem mais nada a viver

precisando
de um abrigo, abraço
de um espinho, navalha
de nada, de tudo
algo amargo pacas
pra fazer da dor
um furo
pra dizer que é nada
que é só desencontro
mas nada me conjuga
senão o próprio grito
na lonjura dos trilhos
um abandono de juras
eu queria estar cabível
em teu novo rumo
mas não
já não sou preciso
nem afável de amor
digno de tuas mãos
ou de tua cama, não
só precisava mesmo
de uma navalha
abrigo ou abraço
nada ou tudo
alguma amarra
algo que faça furos…

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