Ah, Que Vontade Que Me Dá

ah, que vontade de não sofrer
mas me culpo sem querer
por erros mínimos e dores de aquem
de qualquer um que faça sorrir

ah, que vontade de chorar
se meu erro é tão ingrato
pois minha dúvida relapsa
é se ei de ser amado
mesmo querendo só amar

ah, que loucura que me dá
quando percebo um erro meu
que vontade que me dá
que vontade que eu tenho
de nunca mais errar
e de ficar ileso
pela perfeição do ser

ah, que tristeza que eu tenho
de querer o tempo inteiro
ser alegre e sem fazer sofrer
a amada, o amigo, o aquem
que vontade de fazer-te
sorrir o tempo inteiro
que vontade
ah, que vontade que me dá

Nosso

nossa pimenta é o teor da culpa
nosso destino é não se culpar
nosso sal é a beleza abrupta
nosso caminho é um porto de sol

nossa manteiga é o cuidado presente
nosso triunfo é não se dar mal
nosso pão é de amor e de leveza
nosso mistério nem tem final

nossa receita é coisa sincera
nosso pecado é querer mais
nosso trejeito é nossa inocência
nossa decência é o teu quintal

Me Abra a Porta

esse friozinho,
abre as janelas e deixa o sol entrar
deixa a brisa bater e teu cabelo voar
deixa o sono te vir, deixa cochilar
deixa o amor te ver, me deixa te amar

e não te esquece daquela xícara de chá
do teu espírito maior, da tua manhã
não te esquece da leveza desse sol
que queima sem arder e que dá
um sábado qualquer, motivo pra sonhar

não deixa vagar teu futuro
por um beco escuro dessa vida
nem duma travessa indecisa
não deixa o passado atracar
tua nau que pode sim, voar

e não te esqueça da brisa e do sofá
daquela xícara de chá
e daquilo tudo que achas legal

Correr Correr

correr correr
pra adiante de todos
e puxar a maré
as boas marés do mar

salvar a maré
salvar e correr
pra adiante do mar
e ver o sol raiar
no morro, aos pés
do morro puxar as nuvens
pra trazer boa maré

e jogar no fogo
a água pra apagar
e socorrer o pé
de laranja, lima
arueira, jequitibá
e correr pra adiante
de todos os mares
e puxar a maré
pra correr correr
pra salvar o mané,
a maria e adiante
viver como se é…

Porfindo

quando as folhas verdes secam
quando não se vê o horizonte
nem motivos para olhar
adiante não se vê um caminho
se perde o brilho
se perde o sonhar

não se almeja um destino
não se almeja nada demais
nem se contempla
apenas sozinho
perdido em uma calçada
julgado, penando
perambulando
ao acabar

porfindo eu vejo os restos
da minha história
entre alguns segundos que restam
nada atravessa meu corpo
as estrelas não me vêem mais
do pouco que o sol vai contornar a Terra
meu corpo vai latejando
perambulando num jogo perdido
que é a vida
que é viver
que é querer
por onde sonhar?

Contos em Valsa

dançando a mesma música
guiando os mesmos passos
pelos salões, pelos compassos
por rodopios de súplica

trazendo em retorno o sorriso
que vai guiando outro sorriso
que abre uma janela, uma porta
que deixa o mundo total

dançando na marcha dos abrigos
dos cobertores de lã
do ar leve da manhã
dos momentos bons que preciso

vem já a aurora me trazer um poema
vem me trazer outra vez o sonhar
acordado na janela onde o luar
se faz de verso nesse meu dilema

ando concordando com o viver
ando deixando-me sentir
ando dando corda ao meu querer

rodopiando na mesma música
não mais o mesmo passo
cada levada é a levada única

Meditar

onde as flores são suspiradas
pelo anjo que move o ar, é o vento
é o vento que traz a reviravolta
do tempo, do tempo que parado jas
com o sorriso que tesmpestuado está

vem o anjo e limpa o céu e traz a brisa
e traz consigo um terno carinho do ar
e traz o tempo e a volta e a vida
que traz o suspiro, que limpa o campo
que faz a grama encharcar de chuva
faz a correnteza ser sinfonia e o vento
o maestro que rege as calmarias
e o anjo sopra para o ar se vento
que faz a brisa
que move a flor
que limpa o dia

Zumbizante

hoje eu vi a escravidão
vinda e bem-vinda para cá
vinham escravos mal pagos
entre montanhas em mares negros
com naus de rodas sextas
de carga extra e superlotação

as correntes de ignorância bem-vista
seguravam a correnteza nos paradouros
pediam pra descer nas suas senzalas
sem senhores
o temor era da falta de ser escravo
de ser farrapo mal-pago de todo dia

nau entre vales, entre morros
navegando em rios de piche negro
de farelos de montanhas, de suor
de outros escravos de outros senhores
de outros porques
mas os mesmos temores
o de sobreviver
entre o enredo e o desandar da máquina
que ferve pra superaquecer
que pede pra querer
que faz questão de esquecer
todo o dia
acordar, e esquecer

Volta-Vida

a força de chorar é a mesma de sorrir
a beleza da flor que não conhece
é a proeza da vida que desconhece
a vida e a forca e a dor e o elixir
da vida
que dá voltas
na vida
que dá voltas
na vida

que gira, que grita
gritando contém a tristeza
e faz a bomba maior da gente
é a bomba do dia-a-dia
que gira
a gente
que gira
a gente

que remonta , que constrói
contruindo com o nada e criando
é assim que se faz a volta da vida
que se faz a vida das voltas
na vida
que remonta
na vida
que remonta
a volta
a volta na vida

Vanguarda

meu coração de vanguarda
meu coração, suspirar
que o passado é distante
meu coração de amarga avalanche
que o tempo avançar

e correr e correr estonteante
correr para não poder parar
meu coração é ambulante
mas perambula num só lugar
distante donde moram meus pés
que querem correr
correr pro futuro sem parar

meu peito é um universo em parte
meu coração é a luz que move
o tempo
e a caravela do vento
se move pra frente na frente do mar

adiante o coração faz pousada
nem que deus me mande os trovões
eu subo até ele de escada
e digo que meu tempo é meu dono
e que não é por nada
mas meu coração é de uma amada

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