Valerá

como quem arde em tensão e anseio
minha morada triste se alegrou
roubaste do mórbido e trépido abandono
e então reve teus medos em meu passeio

se fosse tua mais vívida poesia
saberias ao certo que eu estou aqui
saberás ao fim que sou um erradicado
só um homem que o mundo não viu

vieste em minha face dar-me um beijo
e com total encanto te beijei
parei, em anestesia de moléstias
então vaguei em nove céus modestos

pois se tua carne vive de abandono
saibais que meu encanto não resiste
se subsidiaste minha vida
com tua vida em desencontro à minha ferida

eu me distraí e me deixei levar
por este rio poente e lento
vago agora em pranto inerte
vagando solene em teus cadernos

mas se tua quimera esquecê-lo
verás que meu velar te valerá
cada segundo de teu sono será um sonho
se tua angústia assim te descançar

Pranto do Mesmo

gosto da chuva
ela faz as lágrimas
chuva
e me livra da culpa de chorar

também faz a lágrima
parecer o céu em prantos
desaguar
e faz do vento a tristeza

e assim se chora o pranto do mesmo
que volta aos olhos ermo
tão ermo quanto o já derramado
pranto que o céu está a dar

a chuva também gosta de mim
faz da minha dor um consolo
com as dores do céu
Todo
meu pranto também é sem fim

Tempo ao Tempo

meu relógio anda com fomes de ti
contando as horas e adiantando o tempo
só pra te ver chegar aqui
ele anda acelerado sem dó de mim

esse relógio que se move com a espera
que se move com a chegada e a partida
que anseia o seio breve e teu colo
que chora no “olá” e na despedida

ah esse tempo que corre contra o tempo
mas o tempo era ao meu favor
e ao meu ver esse relógio anda perdido
no tempo, no centro de todo o amor que há em mim

eu sei que o tempo haverá de ser justo
quem é ao tempo o melhor cronômetro
sempre tem ao seu passar das horas
as mais felizes eternidades que se há de ter

Dê no Pé, Mané!

esbanja a conta
ou conta, o mané
se és de fina lata
ladra o cão que é

acaso tiras de mim
o que mentirás?
a falta não tem espaço
justo este que me virá

esbanja e apronta
a casa tem que respirar
ou se de conta mané
ou volte e limpe o pé

Voar Pr’Álem Chão

se todo o dia o breu consome a brisa
quem sou eu pra querer voar
se enlouqueço, nada me vacila
se me aniquila, não dá pra parar

quando me tira do ar eu perco o chão
se me dá a vida eu morro à mingua
se carece de felicidade, eu não
‘tou muito bem pra me deixar pra bobo

Profética

eis que na miséria ainda ardo
mesmo que tarde a boemia
e no encanto perdi uma parte do meu enredo e fantasia
mesmo que com esperança a vida encare todo progresso da alegria
o meu descanço não me vela, a chuva forte anda tardia

mesmo que me cante as primaveras
mesmo que me dê algum rancor
na minha mão ainda me espera o meu troco exato
o meu pecado é um quimera que me falha com amor
eu sou a ciranda da balança que pende pro ar e para a flor

todo o bem que se quer aqui
é o que se tem por lamentável
o meu temor é uma vingança de ser tão tolo
e querer demais ter esperança
eis que agora é tarde pois a chuva já me transbordou
eis que acordo tarde e que padece todo torpor
torpe de fantasia, minha total imensidão
o mar é uma poesia e o rio um violão

Vanguarda

não vivo mais de nostalgia
quero vanguarda e futurismo
vou dar o próximo passo antes
deixarei a quinquilharia

na velocidade da luz
um vagalume pra quem vê
tão pequeno por estar alto
voarei como gaivotas acrobatas
e chegarei antes no depois

amarei agora e depois
viverei agora e sempre
só subir e subir
pra quem me ver pequeno
ainda achar que’stou aqui

Deveres…

o bom senso agora é lei
não se passa despercebido
o corpo conjunto do teu
na rua o olhar é sorriso
o peito aberto é abrigo
por que o grande irmão nos vê

a rédea curta agora é fato
se ata conjunto o ato
o célebre agora é vulgar
em algures reverso se vê
o peito agora é angústia
a obrigação é matéria de jornal

a conspiração é manta rubra
é sagrada a trama das vidas
nas esquinas e bordéis suspiram
vagabundos e mulheres fáceis
copular é obrigação oriunda
dos afazeres selvagens de casa

o bom senso agora é lei abrupta
vem condensada em risos grátis
em enlatados de sobrevida
vem conjunta a corrupta matéria
etérea nos jornais únicos
a vida é uma televisão arcaica
e viver um dever sem rumo

Só Um Minuto, Por Favor (vou cuidar de mim)

eu caí, eu levantei
não perdi nada, só errei
eu me reconstruí
em outras reconstruirei
agora, não me faça o favor
de me dizer que errei

eu sabia, eu mesmo fiz
é um pecado errar de graça
mas eu não sabia da nitidez
que meus olhos tiveram
eu caí, eu mesmo olhei
pro meu erro que eu mesmo impeço

eu agradeço a tua sensatez
tua lábia, teu jogo de cintura
realmente deveria ir no começo
sair a errar pela rua
mas não, não me conheço
sei que no meu tropeço
nenhuma culpa é tua

eu te digo, eu nem precisava
eu removo meus joguetes
eu te tiro minha lábia
eu agora vou ir de recomeço
agora me reconheço
sou a mais pura fúria
eu agora vou, é de cabeça
pra andar na minha própria rua

Luxúria

diz-me como é perfeito ser assim
tão distante de si, perto da carne
diz-me que é uma religião se redimir
dos amores e da alma tentar fugir

pra daqui a pouco eu poder te ver
eu tenho que passar pela nudez
pelas vivazes crias de um satã
vou ter que te pôr em um negro divã
e tentar dizer que não é bem assim

olha pra eles como se olhasse pro fim
pensa no que o tempo diz!
olha e fita as escrituras sagradas
dos povos de todas as moradas
que já habitaram essa história

Vide as entrelinhas dessa festa
não bem o que se presta a fazer
olha só e me diz
que é que essa gente ainda tem pra perder?

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