Adeus Ano Velho…

os lábios são fogueiras inundadas
não há mais quem me atice
brasas de sorriso me carecem
feridas na chama,
de quem me ama, frases de improviso,
fazem com aviso o mal estar por vir

os olhos ficam carregados
enquando o peito aperta
o sopro falta no vulto da porta
sou morto vivo enquanto ri demais

eu que não carrego o fardo da vida
não desperto paciência nem abrigo
faço a falta que fazem os isqueiros
quando o último cigarro pede calor
eu que não me obrigo a sentir solidão
não me vigio enquanto espreito teu ato

com aviso prévio e sem motivo óbvio
a euforia é um remédio antigo
para as dores que se nega abrigo

Fôlego, "Pneumologicamente Falando"

o frango à girar não cala a fome do cão
na espreita da ciranda a roda anda, eu não
a vida é uma pirueta e que até pomba gira
eu já sei, pelas facetas da vida
e das piadas que nos aprontam os furacões

a moeda que paga o preço do carrossel
que gira, que gira, que gira brilhoso
na noite em que os tontos são lustrosos
fantasmas de armários, funerais e papões
são fardos de granito e herculosos trabalhos

são meticulosas ilhas móveis
flutuando no bailar das sirenes
à meia noite um corpo, ilustríssimo corpo,
pende no varal com roupas indespidas
despedindo-se das facetas
das piruetas
e da roleta-russa da vida

é um colorido, jazigo,
de cores trepida
sem juízos prévios
o julgo e o réu
soam perenes
seus letais abrigos

cochicham voadoras moléstias
na varanda do parque
paquera a morte na janela
no girar dos estribilhos tristes
que da sala o rádio impregna

Aconchego

o sorriso aberto do clarão do sol
vem abrasar nossa harmonia que mal ia
a perfeição, calor dos braços teus
que me tenram abraços de chama corporal

ah, essa vaidade de te ter em mim
como quem ama o conforto dos cobertores
no frio do inverno, enquanto amores
que todos teus desaguam a sós em mim

Mundo, Tolo o Mundo

o mundo assombra com fantasmas histéricos
sentimentos estéreis e pecados de outrora
o mundo resplandece fugas de morte
enquanto pulgas assolam tolas armadilhas d’aurora

tem cá, vampiros de consciência moderna,
tem cá, as memórias mesmas e vãs
o mundo assopra as vidas
que se tornam feridas em divã

o mundo nos cobra imunidade
força e frieza, mas tá calor
calor que é uma beleza
o mundo que faça-me o favor
de me encharcar de proeza

Cavernas

a carne essa que dispersa está
diversa entre a poeira e o sal
na brisa do afago que é teu
é um impreciso mortal
que se desentoca correndo
para luz cegante do céu

que quando a doença aperta
o peito divaga na corrente
que o sangue planeja,
solene, a corrente das eras
quando se foi na eterna euforia
o humano corre, cai
e abraça as pernas
na tentativa cruel de velar os olhos
da luz que cega, cá fora
onde aflora a loucura sincera

solene, a batida das pedras
quando se dói na dor inativa
negada com a sombras aladas
das aves retorcidas do umbral
da luz que erra os nós
cá fora
onde o saber não s’encerra

Alberta…

a porta aberta
ziper não está
a perna aperta
a coisa é certa
-vai rolar

e enrola
entrelaça
cai a camisa, o véu
que não passa de véu
que a tempo não via o céu
Alberta
aberta
como o ziper
agora está!