Um Susto no Jardim

meu desejo é insano
é psicopata mambembe
é um fado de tropas
clarins à ginete
um poeta do avesso
o cravo à galope
o jardim que de susto
acordou no inverno

a carícia é a volúpia
meu destino cravado
escrevo um soluço
e relembro o retrato
a minha corrente
é um nó nos sapatos
eu tropeço poente
e sorrio pro asfalto

pois por certo é fato
um abraço apertado
uma porta fechada
um adeus atrasado
meu desejo é um vão
é um cão desatado
um jardim bem corado
numa manhã contigo

Que Gema O Brasil!

não teme o verbo proliferado
ó culto barato de botequim
se teus livros fosses meros clarins
haveria a guerra fria com armas de recado

eu cultuo, culpo, esculpindo teus retalhos
em trechos vazios de uma antologia
da discografia de Chico Buarque
faço desdenho aos teus folhetins

ó tu marginal mente cultural
elite desprevenida por arrogância
em que mal lençol morri nesse passado
em que trago n’alma tal faro calejado

Palavreado

vem cá me tirar do sério
me faz rir um pouco no tédio
me tira desse suplício
à beira ilustre, precipício

um pouco
caído
coitado banido
espécime extinta do dicionário
escapulário na mesa
a destreza do ato

o relato contrário
o contrato
teu firme punho carinhoso
suor bravo
a manhã pertence ao dia

um tanto
tonto
vadio
é tarde eu sei
-agora foi
…que pariu

Metáfora em Desaforo

que me salta o sorriso que me prende os dentes
até na falta eu evito o todo sorridente
quem me prende, eu evito
quem me solta me entende

que me corta inflamado, o peito jorrando
até na porta eu repito latente inflamando
quem cá fora, eu repito
quem lá dentro chorando

quem por sorte me segue, turbilhão em sua face
qu’em tal morte, eu presumo, e recrio uma prece
que te doa, eu presumo
que com prazer me aparece

é evidente a carência nos meus ardis clarões
o reflexo total, totem mortal dos guardiões

All What I Can

When the end was coming
the truth, can mean me?
I was seen of the past
more than I can be!

read and choose the cards
change the pacific ways
war can drop the spell
speaking where you win

gain, choose your spell heart
drive into your fucking highway
save a new day, die anyway
anyway I can be
What I can?

Ande Onde Canta o Nada

fique por aí
a festa melhorou
minha vida ficou estranha
a juventude se acabou

o coração é arítmico
o ar me falta no furacão
vou seguindo febril
à parte de mim
lá vai meu rumo pedido
cerrando o perdão

Confere!

confere!
confere bem os teus planos
veja bem se os anos te valeram!

confere aí vai!
não espera minha mão
à tapear suave teu ombro!

nem me venha, confere
veja se tua índole é franca
se teu jogo é limpo e anda…
(anda porque não espero)

tua alma é teu fardo
teu coração é negro
tua caridade é roubada
de livros de sebos
de vitrolas vadias
de contratos alterados
tua sina é ousadia
demais
para um espírito coitado

oscila entre o nada e o pouco
entre masturbações de louco
entre violinos de trato rouco
(teu gemido dolorido quebra o som)

confere, veja bem se tua maldade é valente
porque minha justiça já não tarda

Joio no Tempo, Tempos de Nojo

Nojo ansioso de me fazer rir
gargalhar e cuspir aos berros

Palavras, pálpebras dizem
mas só a vontade reprime

ó deleite materno
eu piso, com vontade soberba
uma vísivel turbulência
teu olho entrega teu álibi
recompenso com desprezo

ó gozo, fadiga e deleite casual
dá-me a história que nunca tive
dá-me rápido minha resposta
sem tua mão calejada de mentiras
dá-me o direito sobre tua alma
dá-me controle na tua vida
dá-me teu peito e tua morte
tua sorte é estar viva
tua sorte é viver em manchas
ferida que sangra na tua cara

teu olho me entrega tua cama
a mais vil e ralé das damas
ó deleite de fácil proveito
dá-me prazer em teu drama

Latência

morto o sádico transcende
do luxo ao âmago trépido
latente em noções de uso
no abuso carente da vaidade

úmido o corpo perene
corta o lábio ao contar
segredos acusados de si
contemplados no frenesi

controle acalentado
masturbando a felicidade
trajando o não de sim
evitando caridade

doçuras põem-se ausentes
a boca segue à falar
se ergue latente calado
o contrário de se calar

todos os lados perdidos
eu encontro o troco
e compro abrigo

protejo-me no visível
saúdo a correnteza
a leveza do bem amigo
e trago um fogo em brasas

meu coração nunca para
eu trago o fogo em brasas
aqui nunca se apaga
apenas se paga pela escuridão

Da Casa Virtuosa em Lugar Algum

na cama furto o pecado
deixo de lado o desejo
retraio total o gracejo
na dócil vaidade deitado

tuas intrigas de advogada
as carícias no rejeito
tira de mim o proveito
crio o mundo em madrugada

pecados veniais, genitais
os cômodos são únicos
os lares é que são totais

pecados, porém e acaso
o porém me trouxe ao lar
o acaso tratou do mercado

« Entradas antigas