Estranho Eu

me estranho
estranho como eu
belo tanto maldito
inviável quanto querer

eu me requisito
me nego o quanto
e tanto que sou
me estranho que sou

me advirto e me espalho
contradigo o que disse
percebo um nó de navalha
no peito girando amigo

Ao Revés do Estar

varria o tempo dos braços
relia velhos comas profundos
medos destinados à perambular
pela alma consciente de um impuro

pela limpeza dos tempos
eu esquecia da romaria
esquecia dos velhos prantos
das dúvidas narcisas em mim

das tímidas alegrias em si
que tive por mim, quase enfim
quase que fui feliz

quase, chegou no momento
divino contradito dos puritanos
estou quase completo
completo maldito benquisto entre céu e inferno

completo, repito, desdito pelo teu seio materno
que não fui, não sou, apenas era
era apenas um vacilo deslumbrado no etéreo

era apenas um terço relevo de tua mesquinhez
um pedaço autoflagelável de tua carne
e que agora faço questão de ferir à dor
de fingir que tua dormencia não me alegra

e fingindo que fico satisfeito
dou-te o troco à tua honra
quero tudo que me pertence
e esquecer tua lembrança
na tua estúpida presença

Enquanto Dormes

noite feita para sonhos
e sonhos para acordar
giro de horas totais
de todas as maneiras de amar

as maneiras de te encontrar
a predileta minha, minha bendita mulher…
é buscar teu perfume mais normal
na tua pele carinhosamente lenta

e te desejar à cada instante de dormir
de rever teus olhos diante dos meus
na preguiça etérea da cama
é só consolo de quem ama
de olhar a escuridão de Deus

escrevo teu corpo na lembranças
nas mãos figuras de tuas pernas
nos dedos, os toques impressos
e na boca um sorriso disperso
à se agrupar n’alma
ela contempla a janela
ela preserva a casa
ela propõe a distância

e eu quero aquela
diferença que há em ti
na teu dorso, tua anca
tuas cores e dramas
tua vida, tua bela
a singela matriz
das minhas insônias
eu te quero feliz
no meu abraço fecundo
eu te quero raiz
da palma dos sonhos febris

eu te espero no tempo
na noite
no açoite das horas à me bater
eu te desejo no abraço
na falta do contrário
na brisa dos lábios dizendo teu nome
no codinome perfeito ocultando tua voz
teu sorriso é um jeito que me faz bem

À Girar-te

boca que completa meu sorriso
tua face para espelhar a minha
na cama entre todas as sedes
está ausente a tua voz macia

à tatear-te no escuro
a silhueta obscena de luz
se desfazia com o tempo
fez-se de corpo nu

me sinto louco, imprevisível
à contemplar-te na distância
ponho-me rouco à gritar
a insandecida poesia viva
vida que vibra, volta, e pousa
estremecendo o sorriso
este que está à girar

Ora, Digo Que Não Sei

como me faz bem
me faz também feliz
distinto do passado
eu também à quero assim
feliz, tal qual sono sonhado

e ela me diz que sim
que à deixo feliz
bem assim como eu
distinta do retrato
assim, eu à sinto sorrir

alma te faz breve
ora te deixa solta
te deixa leve, tonta
eu, sorriso aberto
peito suave abrindo

dou-te toda paixão
de um fervor amigo
um aconchego, sentindo
eu, teu ego concreto
sou labirinto

e sou distinto do retrato
e sou relapso no coração
ora me apaixono e me derreto
ora me atrevo e digo que não
mas certo é que meu receio
não me deixa tempo vão

Por Mais Nada!

o cansaço e tristeza n’alma
um pedaço fatigado perambula
pernas bambas e um sorriso frágil
dobra a esquina e percebe o caminho
sendo ele transeunte, ante, onde
anda à contragosto ao rumo
e segue por um segundo sozinho

para toda tortura tem sua mania
caduca, pergunta, mais um segundo
vê que olhou errado e para
percebe o caminho e dorme aos poucos
se ergue da lápide das ruas
anda aos desgostos, em contrapartida
encontra-a partida na lembrança

a vida
ela não dança
a moça feito criança agita
e se diz esperança
e grita agonizada dentro do peito
chora inquieta por um dia
por vários dias e décadas
rememorando as vitórias sépias
largadas nos sonhos de se viver

é para quem me chora
a vida pode ser agora
pode ser nem mais
nem menos que isso
por ser solita no mundo
essa maldita é minha
eu ando tão deixado
e tão pouco quisto
o ego cansou de corar
e me deixou, aqui parado
velo meus cansaços
e transbordo um sorriso amarelo
embelezado pelos ossos da cara
e amarro minha vasta palidez
no ventre das poesias perdidas

ai minha bendita vida
por que não me esquece!

Ausente

quando abro a boca
vejo teu nome suspirado
quando velo o silêncio
dou-te conta no pensamento
abro os olhos e te procuro
fecho a porta e fico sozinho
procurando embaixo da cama
alguma piada tua de se fazer ausente

Desconjugue

como queiras meu desejo
moldo o mudo olhar
e desatino um sono imundo
com um desejo noturno á me dar

como se não bastasse eu mudo
e moldo meu medo profundo
pra te tocar

como tua alegria me fere,
me agrada e me gruda
e me conjuga no verbo
que não sei o tempo ou culpa

e que me desconjugue do querer
me julgue onde ninguém escute
as confissões de um amante
de um exorbitante madrugador

Sade Revisitado

tenho dito que guardo segredos
e que o velo com medo por eras
tentado copiar as maneiras
eu rabisco as tuas pernas

e tecer um relógio amigo
olhar fixo e sedento, sem ser
o umbigo meu e desatar
os nós que aqui estão

mas eu quero tirar tua máscara
e viver teu corpo em doses múltiplas
e voltar para casa liberto
atado pelo vício das tuas coxas
sentindo a textura da tua pele
lembrando do gosto que tens
sentindo muito mais que tua boca

Quisera, ‘Caso queira…

cada passo dado o teu traje caí
todavia prepara um café
me traz um caneco,
tira os chinelos e vem pra cá

põe um bom filme e deita no meu colo
que a noite brilha enrubecida
veja se teu sono te esquece
com teu jeito de ser
parece até que me esqueço
do quanto caminhei

preguiça disfarçada em doçuras
morangos são prazeres puros
eu sou retardo no tempo
e espero
o momento de ser saciado

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