Deslizes

quanto tempo foi e se foi com o tempo
a degustação dos teus tormentos
amaldiçoei minha boca na tua boca
na desdita rouca eu gritei demais
arranha minhas mãos e me beija o pescoço
a perversão é o sentido dos loucos
e a tortura é o castigo dos sãos

ai, a vaidade da tua pele, tua carne
teu pecado quase leve como o vento
que me leve com teus pensamentos
para um lugar distante de qualquer um
de nós
e se for possível deixa meus pedaços
intactos, que eu guardo teu carinho
na dor alegre da ilusão

ah, antes que tua boca seque
negue um beijo de um qualquer
que nos meus braços, meus deslizes,
não terá mais a falta de ti, mulher

Escarro

pois sem mais nem menos a tortura calou
o gelo febril de outubro desgarrou-se
e porfindando o sonho virou-se mar
um trunfo malquisto de sair calado

foi cambaleando até cair o ébrio
e foi do céu à pária rústica
o ombro luminoso de uma nuvem de escarro
cedeu ao peso e passou do poço ao térreo

e comtemplou-se diante do espelho
a figura amanhecida de um corpo esmigalhado
juntou suas migalhas e andou à tempo

Um Calo n’Alma

e se foi o meu sorriso
como que castigo por sorrir demais
alegria foi corrente no meus braços
que se foi com os traços do rosto teu

o retrato envelheci com meus dentes
o sépia dos teus ardentes quadris
o furor de cadentes sem fins, nem porquês
o presente tirou-a daqui e dos meus afins

dos meus braços como pranto em março
foi-se com as nuvens brancas da tarde
e se foi como quem vai pra nunca mais
e como se nunca mais eu voltasse à sorrir
eu calei por nós e calarei um calo sem fim
na minh’alma um calo de dores à mil
que lateja feito segundo coração
há quem diga que não, o coração dispara
quando penso em nós com nossos abrigos frágeis

há quem pense que não
eu é que ainda digo que sim

Para o Que Passou

nessa vida eu não aprendi nada além do que eu sei
por quanta dor eu já passei, mas nenhuma esqueci
mas quanta dor eu já senti
e quanta delas eu nem sei
me fizeram relembrar que a vida é pra valer

por hora nessa inglória infortunada de amar
me senti na minha casa e na vala me joguei
na correnteza da culpa, do orgulho e da trizteza
a beleza se esqueceu de me dizer quem era quem

e na tristeza dessa vida eu aprendi
que a vida joga limpo e que eu perdi
e na derrota desse amor eu então encontro
nova vontade de estar de amores tonto
e embriagado na fadiga
e na ferida negado
eu te relembro sozinho e complicado

Lodo e Sangue

faltou o zunido no ouvido
feito tiro mal dado
amor mal-matado
deitado no úmido piso
que depois de sangrado e fedido
é que sumiu

sobra a dor nos cotovelos
saudade é gato em novelo
e arranhando meus olhos
vou indo cego, meu desespero
é ter que firmar os pés no lodo
e dizer que já fui feliz

sempre estive num chão batido contigo
mas tu me entristeceu
e eu chorei demais