Ato II (Da Curiosidade)

Tinha um olhar perdido dentro da caixinha
a música zunia no perfil do vento
jazida habitada por cem sonetos vazios
a caixinha enfestada de vermes, morria

a cada passo, um transeunte olhava
lembrava do medo que quando criança tinha
lambia os dedos e o açúcar queimava a boca
e o doce virava uma podre sangria

por sinal de opositor que era
o olhar continuava até o cansaço passar
a escuridão reinava no poente, e passou
um velho tráfego de juras de amor

Ato I (Da Morte)

há tanto pampa, tanto ato e cada vela
de barco ou de morto
em qualquer canto, uma quaresma

depois de tanta loucura e tanta luta
faltava um pingo frouxo de vaidade
no meio da estrada um barranco solto
no vendaval das três marias
o fim do horizonte iluminado
há cada tanto e todo mundo
variando o pó, a pá e a paz
enfim a paz
ao pó, ao Pai

Foice

deu nas vistas dos abutres
doses abstratas
de cada pedaço traseunte

foice diplomática
ceifar a lida do corpo
morte (a)cefálica

queimada simplesmente, meu amor
eu dou risada dessa sangria
cata corpo coice cantos doces
e suaves retalhos de dignidade

deu nos vícios, os entulhos
de faces distintas
de cada abraço decrescente

foice anticéptica
ceifar os riscos de sobreviver
morte controlada

Uma Morte Lenta

porta cerrada e velada por anjos
esta minha porta de munir sonhos
trancada à sete cordas e cordões
despertei nesta manhã infindável
porta de saída, escape venial
sensível ao toque e a culpa
à última multa dos desejos
os punhos cerrados e velados por cantos
por contos, por tantos anos à fio
ao fio da navalha, que não sangrou
a minha carne branca, cadavérica
porta aberta
eu entro
atravesso os tempos e temporais
imagens distorcidas no fundo alvo
cegueira santa e os dedos cerrados
línguas estranhas me ouvem, entendo
entendo agora, estendendo a mão
cerrei o último paladar aos cães
guardas deste portão órfão
única estação lenta à se embarcar

Bel-clarão

tenho vultos de virose
de outra talvez sempre bela
poesia de nunca mais
e de nunca em quando suspirar
aos ouvidos do sono profundo
de um dia mais fino de se aguardar
e aos bens, capaz,
eu vou respirar é no fundo da multidão

e que me aguardem com mil pilastras de chama negra
eu vos espero com o sorriso entre as caveiras
o meu jardim já jaz à enxofre no teu punhal doce
da adocicada, primavera

pois ao teu suor já me bastou a minha luta
meu sorriso fácil foi a gota última
das minhas alegrias sem resistir
aos torpes aplausos na hora de cair
na hora de cair
de cair a carência nas lábias frouxas do teu chão
o gelo profundo não nos trairá
no corpo imundo do teu peito profano, tua lábia
tua lábia, já faz mais de uma ano,
que acabou aos enganos doutro lado do bel-clarão

Moribunda

manifesto em silêncio
todas minhas desventuras
que nesta resistência de vontades
as similiariedades nos convém
e que quando as paredes desnudas
estiverem retocadas com todo mel
me descuido com os tropeços no vazio
quando me descubro nos espelhos escuros
nos verdes no escuro
nos olhos que quem já me viu
eu recubro as olheiras com meu batom de vinho
e quase morta te desfaço à pensar
eu quase nua velei pela minha sandice
que tu apreciavas, agora sozinha
estranho meus braços e nosso sofá
nosso travesseiro úmido no varal
a chuva em que afogo tua imagem
eu escuro, obscura
a sandice inexcrupulável
a tua tal maneira de querer
bruta força de quem deixou a luz apagar
a luz que apagou só em mim
só em mim

Uniformistas

Olhares aflitos
uniformistas
sobre a desordem
erradicada, liberta!
teus olhos nas paredes
palpitantes retinas verdes
reacionando inóspito
o avalanche bio-químico
de adrenalina pontificada
nos teus mais altos medos
pesadelos pelo pecado humano
rejeitando novos modelos
de subjetividade apolar