31/Maio/2006 às 2:25 am (Poesia)
ponha uma viola na janela
para deixar o sol nascer
é de manhã e a madrugada
se cansou de escurecer
e num dia de dia santo
morria um velho ditado nobre
quem em terra de um deus só
quem tem dois agüenta ou encobre
na varanda tem um bordado
com fios dourados de anjo
da pra pentear agora sem pente
ou afia-se um par de guampa
o burrico falou pra mula
que a jaula não é problema
a vida que se carrega é quase nula
se come, se dorme com uma algema
na vida é são rever o erro
e inútil criar perdão
quando se morre se cala ou se chora
e quando mata não chora não
e do reverbo da inutilidade
tira-se o pouco que eu sei
mas falo pra a mesmo desfeitor
que apanhou para refazer
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31/Maio/2006 às 2:20 am (Poesia)
se é de verde planta o jardim da esperança
quero plantar uma rubra rosa no peito de um qualquer
para que veja ele, coitado, e sagrado qualquer um
o bentido fruto do amor de uma mulher
para que sagre ele e seque nas águas dos beijos doces
que definhen a tristeza do olhar a cantiga do prazer
quando cantar enrubecido de piedade, chorar de vaidade
entristecer a face do encantado do que foi, talvez
adocicar o vinho da perfeição para que beba do puro
e embriagar-se de tanto venerar o sexo que o opõe
o corpo da luta da carne e a carícia da mão suave
inebria recriando o poema nunca dito dantes
dantes ouvido o verbo de que amei
ousei tocar a palavra da boca e penso agora
que sentir foi um erro de se amar aos “quaisquer”
o sentir foi medo de amar tarde ou calar-se ao tempo
que sentir dói como um ébrio se dói quando desperta
amanhecer é provável disputa entre romances vermelhos
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24/Maio/2006 às 9:57 pm (Poesia)
que já andei por tantos cantos desta estrada
não nego nem que já tombei aos próprios pés
que errei e neguei aos tantos que mentia à mim
deste já reconheço que só ter fé é um erro
e que a vida necessita também de algo concreto
isso eu acredito, que a zombaria até descrente
a algazarra fez de mim um certo eloqüente
e demais, eu vivia até contente sem sequer viver
a minha estrada tombava meu pés e eu sorria
ademais e adentro da tonta sincronia
eu naveguei em barcos de junco solto
aprofundando a minha busca no lodo da fantasia
a minha estreita paixão pela vida
foi o que me deixou olhar para a solidão da ilha
me sutentei até estar no alto da cordilheira
vivi então a humildade suave da compaixão
entre logos e nuncas, entre becos e poços
voltei a ser o que nunca mais poderia ser
a vivacidade perene foi a chave excêntrica
dessa exatidão solenemente chamada paz
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21/Maio/2006 às 10:04 am (Poesia)
quando nasci
a sala cheia
nada via
mas cheia estava
a sala que estava
quando nasci
via cheia
e de nada nasci
nasci e via
a sala cheia de gente vazia
cheia estava minha sala
a sala cheia e de vida vazia
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19/Maio/2006 às 2:42 am (Poesia)
precisa eu reapaixonar a vontade
calar as águas do inconstante abstrato de mim
queira eu os pés cravar no chão
desmoer a transcendência quase patética
no relapso verminótico
crescente arquétipo
doença
bruta, reaponta o devaneio
eu bebo direto do seio
a água’marga tóxica
a minha deseuforia puta
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17/Maio/2006 às 1:24 am (Poesia)
embalava-se o berço meu
na ordem da alegria
cresci recriado do afã tristonho
um redemoinho de placenta engrandecida
da cantoria fiz o malgrado
o malgosto das minhas alegrias
foram escoadas no incrédulo tom
o tom da fantasia
prazer das toadas pobres
era uma desleixo nobre ao avesso
um demônio, meu fardo de alegria
acalentou o corpo que deixei cair
no mundo dos poentes sofridos
à oeste tem um divã de loucos
lá estava meu ego manchado de prata
de ouro velho eram meus dentes
de fumaça meu meio fôlego
meu trópego começo
meu cérebro de osso
minha cama de húmus
meu umbigo de certo
era minha alegria de bobo
o meu destino de feto
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15/Maio/2006 às 2:03 am (Poesia)
na rua em que moro, tem pipoca e festa
a pipoca é doce como mel
e a festa bonita como flor
nessa minha rua não tem alma que chore
na rua em que moro, tem balões e clarins
os balões de luz reluzem
os clarins zunem no cordão
nessa minha rua o sossego é tão duo
na rua em que choro, tem festa
tem festa na rua onde moro
onde moro, minha alma, se inquieta,
arrepia as vértebras, se atrapalha,
da cambalhotas e o povo diverte…
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11/Maio/2006 às 3:36 am (Poesia)
é na cama que rola e embrulha o barato do farfalhar das alturas
é no copo que embebe e enrola o cara-a-cara das máquinas sisudas
e é no canto que afina e recria o divino encanto da minha vacina
e é no quarto e nos quintos que eu durmo abraçado na esquina
olha aquela encruzilhada, caindo, dobrada feito lua clara
que rolava na cama pro copo no canto do quarto nos quintos
olhava aquela decaída, bonita, chorada, descendo na encruzilhada
dessa investida
vinha ela de burra
sisuda de cara, na curva, calada
vinha ela de fogo, de lava de cobre
vinha ela matada, morrida, sangrada
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11/Maio/2006 às 3:21 am (Poesia)
e se minha vida não fosse tão doída para mim
que faria eu dessa solene traspiração de olhares
escreveria um romance chifrudo ou um drama paroquial
como veria a flor
e a merda debruçadas do meu lado
eu sem essa tristeza de vítma perpétua
que faria eu sem essa moleca ingrata?
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7/Maio/2006 às 10:48 am (Poesia)
baila, baila
a criança que morta já é
o pequeno corpo que já não o pertence
fede embaixo da terra que cobre o morto
pequeno
porém ainda solto
vaga ele pela sacada onde partiu
onde desatou aquele infanto desatino
na calada da noite, calado morreu
morto o pequeno ainda paga
o pecado
do passado
do antigo
do já feito
a criança que morta já é
carrega consigo o penhor da prisão
nesse tal, de libertino, morto até
esbranqueceu a pálida careta de moleque
apunhalou caridoso e sangrento no peito
morto é
esse rosto de criança já era
agora solto do corpo
livre da correnteza vermelha do sangue
morto moleque
a sombra da varanda
morto, mas breve
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