Ajuda-me

ajuda-me senhor a querer esta comida
esse prato raso e mal cheiroso de óleo frio
toda a insignificância hipocôndrica da matéria
esta ferida que resseca os olhos ou mata a vida
ajuda-me a querer bem a quem só me quer mal

ajuda-me pela parte que me toca os braços
um balaço suicida a cada dois minutos
um morto na esquina me diz para que lado devo seguir
serei contemplado na loteria da sobrevida
ajuda-me a querer roer o mesmo trapo foi meu

ajuda-me senhor a tragar os passos que ei de dar
ajuda-me a suportar este caminho e estes espinhos
toda essa crença que o teu nome leva
tem tanta gente se esquecendo do próximo
ajuda-me a ser o pródigo que achará saída

ajuda-me senhor a não dizer teu nome nunca mais
eu quero me livrar do vício do fácil
quero comer no prato em que morreu a sensatez
roer o farrapo de mordaças vermelhas
que um dia fui eu…

Algures Daqui

esse mundão que nunca acaba
eu ando, ando e ando
e vejo ele andando sem nunca parar

essa oração pra dizer que choro
e choro, choro e choro
vejo ele bufando a fumaça da menina dos olhos

eu sinto ele retraindo minha santidade
e subtraindo toda a vaidade sábia que existia
ele me mata, me mata e me mata
e vejo ele no cortejo do que há de mais errado

esse inútil que não me acaba
nem me cessa, nem me completa
ele só me distra, eu me destruo
ele veda meu paraíso
eu canto para estar algures daqui

Intimidade

o teu braço caiu
tua perna cerrei
teu seio parti
teu coração sangrei

e teu rastro de cheiro
seguiu-me com teus retalhos
nos meus braços para a tumba
teu corpo vermelho de amor

tuas partes nuas na chama
ardendo a volúpia do teu fim
finito de tua alma branda
brasas na tua boca morta

Desam(ar-te)

pinta o céu e veste teu vestido de cetim
joga fora tuas formas e máscaras
ou algo assim
põe no fogo as misericórdias da tua vida
pinta teu rosto como mulher e te anima
ou desista
desista mulher da tua face lisa como flor
lê o dia de hoje nas mãos da cigana
leia a sina
que tua mão fazendo carícia me fez carente
deixou adoecer em mim o meu poente divino
me devolva o amor
pinta o céu e veste tuas asas de cetim
e me consola depois de amanhecer

Desaprision(ar-te)

livre promessa ao são bendito dos calmos
eu espero
na fila do fosso do mundo
uma hora livre, livre de peripécias
acrobacias da calma,
que se vícia nos cânceres banidos
nos que rastejam no invísivel, tormenta
ele livra do corpo o desejo da culpa
e faz da vida loucura gratuíta, sem graça
um dar por dar, cair e cair, roda e cança
essa era a desgraça, o fosso do mundo
livre de promessa aos cânceres invísiveis
uma hora calma era a desgraça,
o desejo do cair, loucura gratuíta
loucura sem graça

Nula e Vaga

Ah, quem sabe outra manhã
um dia vão para recomeçar
caridade nos dentes, que cairão
após o tempo brusco em sermão
vontade de rever os cegos
dos asilos nulos da antigüidade vaga
perambulando nos seios vazios
de uma tal serenidade

perambulando nula e vaga
vadiando, ata os nós da partida
leva minh’alma que é benvinda
após as trocas perdidas na saída

A Lira Acabou…

belo era ver o barco passar pela cidade
em meio a rua de pedra bruta, cascalho e areia fina
não sentir culpa de sentir saudade
não ter medo de pedir a mão
para subir no barco da felicidade
que era belo vê-lo passar pela cidade
em meio a pedra brusca molhada do orvalho
das minhas lágrimas

belo foi sentir este passado inexistente
ver resistente que tenho um por fim grandioso
remoer as vontades do que nunca tive
e sentir no osso a saudade que nunca terei
grande foi o pavor de ser cego ao próximo
um passo no escuro da imensidão do terço seguinte
os meus novos vinte anos que chegarão ao fim
depois do meu por fim ter chegado…

Volta Depressa

não te jogues tão rapidamente aos meus pés
quero um pouco de ar para respirar sozinho
não te entregues tão barato aos meus braços
quero um pouco de sossêgo no meu coração…

volta depressa para teu canto
que meu canto é repleto de amargor
volta pro teu mundo, teu teto é meu chão
eu quero ver esta montanha virar teu perdão

deixa-me quieto no meu sóbrio luar
quero ver a manhã nova no céu limpo raiar
e ter novas palavras quando a noite
descer levemente na imensidão

guardado dentro de mim
está um peito firme à chorar
e inquieto só a sofrer
está meu jeito de me acabar

guardado no queimar dos versos
meu cansaço de me guardar
inebriado meu Eu possesso
mata meu pranto e me mata…

Ana Morria

catapulta, cata-vento, catacumba
morria epilética em estalos de loucura

no quarto imenso não privativo
gelado de bom senso e algazarra
deitada numa cama, simétrica à tantos
o peito nu coberto, os pés à vista
chegava trépido aos pés da cama
seu estado morto, fitava o teto
em todos os metros que ele tinha

sou uma semi-poética fantasia
uma labareda de fogo íntegro
um canto de qualquer, herege
o tempo que comeu seu futuro
ânsia entre sonhos prufundos
rasgos na carne à tua profanação
a mais danada de todas as idéias
aquela que suga os teus minutos

analgésica, anacromática, ana morria
morria epilética sem perder sua alegria
quando vinha me morder até doer a paz

Sou Filho De Maria

eu sou filho de Maria
filho da santa maioria
filho do braço, do laço e do Amor

sou ovelha que enegrecia
em toda folha que escrevia
era um mistério atrás do outro, solto

sou filho do tanto o que fazia
filho-poesia até cansar o braço
mas ainda sou filho de maria
mãe-maioria da fuga deste regaço

eu sou filho de maria
filho sádico, filho-poesia
filha-maria, mãe-nostalgia
eu sou filho do tanto faz o que fazia

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