29/Março/2006 às 3:38 pm (Poesia)
parou na beira da serra e fitou o mar
alucinado com o tremor das pernas bambas
cambaleou no ar, trêmulo e gelado de dor,
enquanto vôo sem asas, fitou o chão parado
era um silêncio abismal o que lhe atraía
parou no céu
enxugou os pés, até subir no altar
fechava os olhos sem entender nada de tudo
sentou na cadeira vermelha estofada
fez-se a luz!
dos mil clarins
percorreram sonoros gemidos
dos mortos caídos no canto de mim
na queda viva subiu morto
desceu louco para além da vida
subindo ao trono dos mortos
gozava das suas vicissitudes cotidianas
e a alegria tornou-se… fria
e muda,a tristeza era comédia
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25/Março/2006 às 9:29 pm (Poesia)
e vem o touro
a mulher cega
lá vem lobo
daqui o vi também
e vinha a tinta
chegando aos baldes
a chuva caiu
sequei os olhos
a lágrima rolou
secou a alma
subiu o morro
o touro
acendeu a luz
fez-se o dia
a mulher viu a noite
a lágrima caiu
a chuva secou
a alma acendeu
e vem o choro
e vem o coro
vem uivando
gritando
gira gira
palavra morta o ouvido escuta
retruca o dito pálido morto
enlouquece no braço qualquer
e vinha também a mulher que chora
louca de qualquer hora para adoecer
agonizava os outros nos braços dela
chegando a hora vira pó, rosa e canela
cravo, pinhão, fruta verde e linhaça
ela tomba
sorri por mim e no fim caiu
eu dei as costas e sorri
chegando a hora de grunir
aflito, tinha o coração na mão
chorando pra não secar
o pote de tinta que usei
para pintar uma oração
calei…
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17/Março/2006 às 8:16 am (Poesia)
o trilho do galho
do alho, do trigo
chocalho, semente
vertente de Sombra
o galho da árvore
mármore grisalho
moído à granito
contente aos olhos
o trilho da árvore
chocalho de barro
o chão reluzente
o fruto caiu!
um novo verde
de novo à sede
da Sombra caída
a terra engoliu
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9/Março/2006 às 3:05 am (Poesia)
ando me perguntando
se as estrelas se criam da poesia
a grande história que perdi
relembrei antes de dormir
o dia da atritada festa
foi o caos, o clarão uno fechou
atrás da fumaça, a tinta manchada
manchou os céus de uma prata falsa
guizos e chocalhos estendidos
a festa do réu rendido
às proezas da alma cega
vendeu-se meu amigo
às mentiras da cabra erma
da cabra erma
da erma ébria
e eu ando me perguntando
se a estrela fez poesia
apodrecida na história natural
caidissima na terra sem breu
mas a cabra é cega
e tem breu sim
na sétima casa da cabricidade
mora o fim, a bota e a curva
trocando juras para mais além.
ando me perguntando
se ainda há estrela
cadente da memória,
esqueci!
cá donde’stou, ai como foi?
a cabra de bota
o fim na curva, ai!
aquele calo n’aurora lembrou-se de mim.
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5/Março/2006 às 10:21 pm (Poesia)
um dia acordei e o céu caiu
no cordão da umbilical tristeza
minha amiga de toda vaidade
vivacidade das poucas memórias
perdidas na lateral da cama
o relógio toca, mas não acorda
a paisagem correu no espelho
da minha parede
um dia acordei
para ver o dia passar
passou,
eu cochilei
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5/Março/2006 às 10:05 pm (Poesia)
o velho mar marrom
cheirando terra queimada
veias perpétuas no fundo
vazias de nada,
cravadas na seca
caída, a ciranda que verde ao vento
retrucava a direção harmônica
na volta da retidão da natureza agora morta
no fundo do mato,
do poço, da fossa
das idéias pré opostas
do crecimento
há destruição
na poça do excesso
do quente ou do frio
da chuva onde caiu
a última gota d’água da regalia suburbana
agora no fuço
a fumaça e a bruma
aprumando nas velhas marquizes
que então gigantes maestras verticais
guiando veias cheias de todos
e todos cheios de nada
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4/Março/2006 às 10:06 pm (Poesia)
virou um limite
o que me servia de teto
o vazio era uma janela
sem trancas, nem porquês
as caras sonoras ecoavam,
ladravam
(ou murmuravam)
qualquer palavra de desordem
na casa de mim, nada tinha
só, um cão, uma viola
gatos de plástico
e um pote de água
fazendo uma música em unidade
o piano do chão do meu corredor
o chá de espinhos, frios de tempo
em cima da parede
ao lado do clero boêmio
que se escondia antes do sol
atrás de uma clareira nas sombras.
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