Último Vulto De Um Amor

vem que minha língua esta fria
vem que te mato no ralo na pia
que te ponho sobre a mesa
e te como sem pudores feito fera

que te arranco os dedos
que te enxugo o sangue
vem que te mato lento
que te mato sem medo

vai que na fila dos mortos és aguardada
vai que na porta da torre és venerada
deusa do infortúnio, vai para longe
vai que na ânsia da vida estás descartada

serás o prato de ração dos cães
quero te decepar da alma e do tempo
roe teus dedos
foi o que sobrou de teu nome
morda tua larga anca
antes que a corte também
antes que a côrte creia que és santa
santa és na ceia dos pequenos demônios
canta a tua dor e teus pedaços
para urrar teu suspiro feito vendaval

Estranhamente, Mãe…

coisa estranha é coração materno
vem sempre no pacote que sobrevive
com contra-ponto, um pequeno cérebro

faz do filho um espelho do passado
a geração fica no ponto gestativo
gestos de ordem fazendo o tal cuidado

a maldade há sem querer entre os dedos
escondido na palma, não tranquilo
tecendo aos deboches, futuros medos

embala aos terços o berço da criança
encaminhando à redoma do credo sacro
e haja saco para demonstrar confiança

dos que me pareceram tranquilos e quietos
eram filhos refletidos, pouco pensantes
e consumiam sem dó panfletos sem descontos

quem foi que disse mamãe, que não és?
a mais bela mulher, tua materna vaidade
me cobre de vida do cabelo até os pés

mãe é completa oposta e polar e fantasia
ela pode ser a conta e eu conto então
cada pedaço de Amor que eu sentia
quando olhava no teus olhos e dormia

Querubim, querer bem.

esse amor pra mim tão complicado
essa doença paira sobre a falta
o meu tempo marcado parece ser tão pouco
e ver o mundo sobre a cruz de malta

mas o dia há de ser deste ar
mas o dia há de ser deste mar
mas o dia há de ser deste céu
mas um dia há de se acabar

todos os escândalos das minhas lástimas
eu quero o bem pra todos e um pouco pra mim
estar sem fronteiras entre o Deus, enfim
sentir o Tempo subindo minhas escadas

vai pelos becos de tua morada plena
escoa nas mãos o vento e me caçoa
a terra rubra range os próprios dentes
na terra vaga os santos tem a queda boa

mas o dia há de ser deste Fim
mas o dia há de ser deste Eu
mas o dia há de ser deste Alto
mas um dia ei de ser um querubim.

dos mil fantasmas da ambigüidade mortuária

o cão de guarda dos moribundos
não é o que caça os vagabundos
(que aqui já não há o que fazer)

um não entende de injustiça e maldade
outro nem quer saber que se passa nessa idade

enquanto um espera nos portões maternos
o outro encaminha-os ao lixo, ao pó ou ao terno

ele prepara o espírito para entrar na morte
o outro faz intriga no corpo para expulsar a alma

e quem dá as boas vindas não abre a porta
e quem chora à saída pouco se importa
e quem prega que a vida é feito uma morta
já esta sucumbida e tida na horta
dos mil fantasmas da ambigüidade mortuária

Decida

decida pelo o que teu coração aquece
decida, antes que tua loucura te esqueça
dê o que há de melhor e caduca a tua cara
porque ninguém paga o preço, de tua falta

o tempo leva mais, a mente busca pouco
pare com teus bailes de lado à lado
decida pelos parceiros, tua família
decida por ficar mais tempo conosco

decida em decair para cima
decida, decida, a tua flor
a tua flor decida, pelo bem
decida pelo bem que for

Para Manobra

revolucionariamente estético
olhem como é bonito o escuro
tudo escuro, hipotaticamente
frescamente uma piada fina
a tua crina à parafina
olha como é belo
teu grito introexpansivo

tu é mudo até de boca calada
ó meu moço, pensa no poço!
pateticamente cético
como era bom o antigo vinho
divagando descrente no mundo
aprendendo com as paredes nuas
sem vesti-las com a tua moda

Das Esperas, Crônicas!

sobre o tenro céu anil
há um poente vazio
dos olhos que se encontrarão
antes do amanhecer

após o velho brio, a luz
que vai entorpecer à moléstia
antes do amanhecer
dos corpos que se encontram, vazios

pela penumbra das sombras e das clareiras das árvores
vá pelo canto donde as nuvens não te encontrarão
virá outra vez o velho sábio da moléstia crônica
ai, meu deus, quanta espera eu terei de beber nesta Terra!

FElis

toda tua atenção pra mim
neste dia que enfim
foi melhor do que o comum

o sorriso não me fugiu
apareceu e se abriu
foram muitos e não só um

eu que de todo este impacto
ga-gaguejei sem correr
corri sem sequer querer
desabafando o colapso

ai se de mim sobrar história
prometo te conto de memória
o quão bom é estar com você